
O empresário Benjamin Steinbruch, controlador da CSN, vinha há meses fazendo um leilão de uma das grandes minas do grupo, a Namisa, localizada em Minas Gerais. A disputa entre um consórcio japonês e outros interessados no ativo levou Steinbruch a aumentar o preço da Namisa para algo em torno de 10 bilhões de dólares.
Com a crise, as ações da CSN, que já vinham caindo desde julho, despencaram quase 40% só nos últimos 30 dias.
Feitas as contas, hoje todo o grupo CSN vale 23,7 bilhões de reais -- praticamente o mesmo valor que Steinbruch queria receber pela Namisa (o dólar fechou hoje a 2,31 reais).
Ou seja: ou Steinbruch desiste de vender a Namisa por enquanto (vai ser difícil que alguém pague o valor pedido) ou terá que fazer um descontão para atrair algum interessado.
Não dá para fugir da crise quando quem está a sua frente é o executivo Fábio Barbosa, presidente da operação brasileira do grupo Santander (bancos Santander e ABN Amro Real) e da FEBRABAN. Barbosa foi o protagonista do encontro de ontem na Casa do Saber -- a terceira de uma série de seis palestras com grandes executivos brasileiros (leia aqui e aqui os posts sobre Nildemar Secches, da Perdigão, e Antonio Maciel Neto, da Suzano, que antecederam o presidente do Santander). Para o banqueiro, a primeira coisa a fazer é apagar o incêndio que está consumindo o mercado financeiro -- colocando dinheiro nas instituições que estão em dificuldades, como está acontecendo nos Estados Unidos e Europa. Depois, é ver como a situação vai ficar. "Os escombros desse incêndio vão deixar conseqüências severas para a economia mundial", disse ele. Conseqüências das quais o Brasil não vai escapar.
Apesar do pânico generalizado em relação à crise, o tema não monopolizou o encontro. O presidente do banco Santander passou a maior parte do tempo falando sobre a importância da ética e da sustentabilidade -- bandeiras que há anos ele levanta no Real. Há quem torça o nariz para essa quase "pregação" de Barbosa, mas é difícil discordar dele quando o executivo afirma que cliente satisfeito dá mais resultado para o banco. Ou então quando ele diz que não faz sentido financiar uma empresa que derrube árvores ilegalmente porque provavelmente essa empresa que opera na clandestinidade não existirá nos próximos cinco anos. Em outras palavras, o discurso de Barbosa é muito menos o de um neo-hippie e muito mais o de um executivo pragmático que considera ser possível ganhar muito dinheiro sem jogar sujo. Uma de suas frases mais repetidas é: "O jogo é duro, mas é na bola - não na canela". Ele agora enfrenta o desafio de combinar a cultura do Real, já fortemente impregnada desses valores, com a do Santander, considerado pelo mercado como um banco bastante agressivo.
Para quem tem a imagem de Barbosa como sendo a de um banqueiro "bonzinho", fica uma frase dele que eu achei ótima e que mostra que ele não é tão inocente assim: "Transparência sim, democracia não". O que ele quis dizer com isso é que não dá para colocar tudo em votação antes de tomar decisões -- aliás, ele admitiu que toma a maioria das decisões sozinho mesmo.
E você? Busca o consenso antes de bater o martelo?
Isso é que é passagem relâmpago. Durante quase um ano, o executivo Paulo Zottolo foi preparado para substituir Marcos Magalhães na presidência da subsidiária brasileira da Philips. A passagem de bastão aconteceu em abril do ano passado. Hoje, passados apenas 18 meses, Zottolo anunciou que está deixando a empresa "para seguir outros caminhos" (ele não diz quais).
Durante a preparação de Zottolo para assumir a presidência da Philips eu o entrevistei diversas vezes (eu tinha a idéia de fazer uma matéria que mostrasse os bastidores de uma sucessão). Ele e Magalhães, seu antecessor (com quem também conversei em várias ocasiões), têm personalidades bastante distintas. Magalhães fez carreira na Philips, onde entrou no início da década de 70. Tem um estilo diplomático e conseguiu costurar alianças poderosas na Philips ao longo de quase três décadas na companhia. Ex-presidente da Nívea, Zottolo jamais havia trabalhado numa empresa de eletroeletrônicos. "Quando cheguei aqui não sabia a diferença entre uma televisão de plasma e uma da LCD", disse ele à época. Impulsivo e polêmico, em agosto do ano passado afirmou que "se o Piauí deixasse de existir ninguém ficaria chateado" e teve que se retratar publicamente pela declaração.
Segundo pessoas próximas à empresa seu estilo entrou em choque com a discreta Philips. A empresa holandesa vai despachar um executivo da matriz para ocupar o cargo de Zottolo provisoriamente, a partir de novembro. Começa agora a busca por um sucessor definitivo.
Nos últimos dias, o presidente da ALL, o carioca Bernardo Hees, passou boa tarde do seu tempo ao telefone, conversando com analistas, investidores e clientes da empresa. Afetada pela crise financeira internacional, em apenas uma semana (25/09 a 2/10) a empresa perdeu quase 40% de seu valor de mercado (leia aqui matéria publicada no Portal EXAME sobre o assunto). Conversei agora pouco com Hees sobre essa queda abissal. "Não cabe à gente explicar o movimento dos papéis, mas os fundamentos da companhia", disse ele. O executivo disse que a ALL terá em 2008 o melhor ano de sua história no primeiro semestre, a receita da empresa cresceu 21,6% alcançando 1,4 bilhões de reais. "A crise é financeira. Recebi telefonemas de investidores dizendo que iam vender seus papéis porque estavam sem liquidez", disse ele. "Mas o mundo real vai muito bem", acrescentou Hees, reforçando que a empresa tem 2,5 bilhões de reais em caixa e que não vai alterar seus planos de investimento.
Uma das maiores preocupações de analistas e investidores em relação à ALL é que a empresa depende muito do transporte de commodities agrícolas e a atual restrição de crédito poderia desacelerar a atividade dos produtores rurais (hoje cerca de 60% de toda a carga transportada pela ALL é formada por essas commodities). "Não tivemos nenhuma mudança em relação ao planejamento desses clientes", afirmou o executivo.
É possível que as explicações que ele me deu e que repetiu exaustivamente nos últimos dias para analistas e investidores (além de ter mandado comunicados oficiais para o mercado),- tenham começado a surtir efeito. Hoje as ações da empresa já subiram quase 6% (ao meio-dia). Vamos ver se esse esforço de comunicação será suficiente para fazer a companhia recuperar valor de mercado...
(Atualização: os papéis da ALL fecharam o dia com alta de 2,71% -- a terceira maior alta do pregão)
Ontem participei da segunda palestra do ciclo de seis encontros com grandes executivos na Casa do Saber. Imaginei que Antonio Maciel Neto, presidente da Suzano Papel e Celulose , seria "bombardeado" com perguntas sobre a crise financeira mundial -- que ontem atingiu seu ponto mais crítico (pelo menos até agora). Para minha surpresa, a platéia, composta basicamente por empreendedores e executivos, só tocou no assunto uma vez -- para abordar as perdas que Sadia e Aracruz tiveram com operações de derivativos (leia aqui matéria do Portal EXAME que explica como a Sadia conseguiu perder 760 milhões de reais). Maciel contou que, no passado recente, a Suzano foi abordada por pelo menos 15 instituições que ofereceram operações desse tipo. "Nós avaliamos, até porque a oferta era tentadora", disse ele. "Mas eu sou industrial, não banco." Na opinião do executivo, esse tipo de situação enfrentada por empresas que perderam dinheiro com especulação, pode acontecer por três razões. A primeira, por um problema de controles internos. A segunda, por conta do processo decisório da companhia. Finalmente, por conta do posicionamento da empresa (por exemplo, se ela quer se posicionar como uma empresa que ganha dinheiro vendendo papel ou brincando de banco).
No entanto, mais que discutir a crise, o pessoal do curso queria mesmo é saber detalhes da carreira de Maciel -- antes de assumir a Suzano ele foi presidente da Ford, da Cecrisa e do grupo Itamaraty -- e de seu estilo de gestão. Acho que as "lições" que ele dividiu com o pessoal valem para muita gente. Veja algumas delas:
Sobre corte de custos
"Se você só reduzir custo vai chegar uma hora em que não terá nenhum custo -- e também nenhuma receita."
Sobre recrutamento
"Antes de recrutar alguém eu sempre peço opinião sobre o candidato para pelo menos cinco pessoas."
Sobre a necessidade de se manter atualizado
"Todo ano eu tiro uma semana para fazer um curso no exterior. E não é a empresa onde eu estou trabalhando que paga. Eu banco tudo curso, passagem, hospedagem."
Sobre um defeito
"Eu demoro a tirar do jogo caras de alta performance, mas que são destruidores de equipe."
(Se quiser ler sobre a primeira palestra, com o presidente da Perdigão, Nildemar Secches, clique aqui. )

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