Um plano alimentado pelo governo federal há pelo menos três anos, de fazer germinar um superlaboratório farmacêutico com capital brasileiro, parece ter ultrapassado as portas dos gabinetes oficiais e encontrado ressonância no setor. “Meu sonho é ver uma ‘Gerdau’ da nossa indústria”, afirma José Ricardo Mendes da Silva, presidente do Aché, o maior laboratório nacional, referindo-se à siderúrgica gaúcha que se transformou numa das multinacionais mais proeminentes do país. No final de maio, um seminário sobre o setor de saúde promovido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social ajudou a esquentar as conversas sobre possíveis fusões e aquisições nessa área. “Todo mundo está conversando com todo mundo, e nosso radar está ligado 24 horas por dia”, diz Silva. No início de junho, ressurgiu um boato de que a Medley, terceira maior farmacêutica de capital nacional, estaria sendo vendida — especulação já aventada em duas outras ocasiões, em 2006 e no início deste ano. O presidente da empresa, Jairo Yamamoto, nega. “É natural que num debate sobre a consolidação da indústria a Medley e outras grandes sejam envolvidas”, diz Yamamoto. “Mas, definitivamente, não estamos à venda e não há nenhuma negociação em curso.”
Boataria à parte, tudo indica que a possibilidade de vender, comprar ou fundir-se com um concorrente está na ordem do dia das farmacêuticas brasileiras. Do lado do governo, o interesse em promover casamentos é explícito. “Queremos fortalecer essa e qualquer outra indústria brasileira, e isso não tem a ver com nacionalismo, mas com realismo”, afirma Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. “No jogo do comércio global, é preciso ter empresas grandes e competitivas.” No BNDES, o discurso é mais enfático. “Pretendemos funcionar como agente catalisador na formação de um grande laboratório brasileiro”, diz Pedro Palmeira, do departamento químico e farmacêutico do banco. “O objetivo é que, no futuro, essa empresa seja capaz de lançar novos medicamentos e colocá-los nas farmácias, inclusive da Europa e dos Estados Unidos.” A empresa sonhada teria de faturar pelo menos 3 bilhões de dólares, o triplo das receitas atuais do maior laboratório do país, e investir fortemente em pesquisa — o setor inteiro investe modestíssimos 285 milhões de dólares. No papel, a criação de uma empresa brasileira forte e competitiva no setor farmacêutico seria uma ótima notícia. Trata-se de uma área estratégica pelos benefícios que pode trazer à sociedade e ao desenvolvimento de uma cadeia de negócios dependente de pesquisa e inovação (veja reportagem na pág. 140).
Esse, para muitos, seria o mundo ideal. Mas não se pode deixar de lado o mundo das realidades, e nele responder a uma pergunta inescapável: diante das cifras bilionárias, tanto de faturamento quanto de investimentos em pesquisa que o setor de remédios envolve, há alguma chance de uma empresa brasileira despontar como competidora global? Alguns especialistas acreditam que sim — apesar do atraso histórico do país nesse setor. A crença está assentada em um pilar: as empresas brasileiras vêm crescendo nos últimos anos, e isso coincide com uma mudança tecnológica mundial que dá chance a novos empreendimentos. Segundo essa visão, as farmacêuticas locais estariam diante de uma espécie de janela de oportunidade — um conjunto de condições positivas que raramente se combinam. “Alguns laboratórios brasileiros conseguiram ganhar musculatura na última década e até superaram o faturamento das multinacionais que operam no país”, afirma Gabriel Tannus, presidente executivo da Interfarma, associação que representa as farmacêuticas estrangeiras. Esse robustecimento, obtido com o advento dos genéricos, torna as empresas nacionais mais aptas a competir.
O desenvolvimento da biotecnologia também conta a favor dos emergentes. “O Brasil perdeu o jogo dos medicamentos sintéticos, mas o jogo da biotecnologia ainda está no começo em todo o mundo”, afirma Silva, do Aché. A tecnologia de drogas sintéticas, que combina substâncias químicas, existe desde o século 19 e gerou quase todos os remédios que conhecemos hoje. A onda mais recente, que floresceu nos anos 80, cria remédios por meio da manipulação genética. Muda-se, portanto, da base química para a base biológica — o que abre espaço para novas empresas. Além desses fatores, conta positivamente um ambiente mais propício à pesquisa no país graças ao amadurecimento do conceito de proteção da propriedade intelectual a partir de 1996, com a Lei de Patentes — apesar de o próprio governo agir de maneira contraditória, como ocorreu no ano passado, quando um decreto presidencial suspendeu a licença de um remédio antiaids com patente ainda válida para que o Ministério da Saúde importasse um genérico da droga.
Fora do campo das oportunidades, é provável que as farmacêuticas brasileiras sejam obrigadas a mudar de patamar por pura necessidade. “A dinâmica mundial deixou apenas dois caminhos para as empresa do setor em todo o mundo: o da inovação e o da produção de genéricos”, afirma Ciro Mortella, presidente da Febrafarma, federação que representa laboratórios tanto de capital nacional como estrangeiros. “Hoje, só empresas globais conseguem fazer pesquisa e desenvolvimento e, no futuro próximo, também só as globais conseguirão fabricar genéricos.” Atualmente, gastam-se 900 milhões de dólares, em média, para criar um novo medicamento. Trinta anos atrás, esse custo ficava na casa dos 70 milhões. Não foi à toa que as multinacionais se fundiram e compraram umas às outras freneticamente a partir dos anos 90.
| O desafio da escala | |
| A criação de uma superfarmacêutica brasileira passa necessariamente por uma consolidação no setor. Compare o tamanho das maiores companhias estrangeiras com as nacionais (vendas em 2007) | |
| As maiores do mundo (em dólares) | |
| Pfizer | 48 bilhões |
| GlaxoSmithKline | 45 bilhões |
| Sanofi-Aventis | 41 bilhões |
| Novartis | 40 bilhões |
| AstraZeneca | 29 bilhões |
| As maiores brasileiras (em dólares) | |
| Aché + Biosintética | 1 bilhão |
| EMS | 590 milhões |
| Medley | 424 milhões |
| Cristália | 314 milhões |
| Biolab Sanus | 263 milhões |
| Fontes: Febrafarma, Melhores e Maiores e empresas | |
Na seara dos genéricos, as empresas indianas e chinesas avançam rapidamente com ganhos de escala planetária. O recado, nesse caso, é que elas podem ocupar espaço no mercado brasileiro com preços baixos. Diante desse cenário, parece imperativo que a indústria farmacêutica nacional passe logo por um processo de consolidação. A comparação das maiores companhias globais com as grandes brasileiras mostra uma diferença abissal. Enquanto a Pfizer, líder mundial, teve receita de 48 bilhões de dólares em 2007, a Aché, maior brasileira, faturou pouco mais de 1 bilhão. Essa é uma das justificativas do BNDES para o plano de criação de um superlaboratório nacional. Os primeiros passos do governo nessa direção foram dados em 2004, quando o banco lançou um programa de financiamento ao setor, o Profarma. Isso ocorreu muito antes de surgirem as primeiras fumaças sobre a supertele, que culminaram com a compra da Brasil Telecom pela Oi, em abril deste ano — operação que o governo induziu claramente e que levou o BNDES a entrar com 2,6 bilhões de reais em crédito aos sócios da Oi. Por meio do Profarma, o banco já emprestou 1 bilhão de reais a projetos de modernização de laboratórios e a duas aquisições: a compra da Biosintética pelo Aché, em 2005, e a da Barrene pela Farmasa, em 2006. No final do ano passado, o programa foi renovado, agora com 3 bilhões de reais, metade para projetos de pesquisa e desenvolvimento e metade para operações de compra ou fusão de empresas nacionais.
Nem as oportunidades nem as ameaças, no entanto, serão capazes de mudar o perfil da indústria farmacêutica nacional se empresários brasileiros não se convencerem de que a transformação faz sentido. No rol de entraves para a criação de uma empresa global, a mentalidade do empresariado está em primeiro lugar. “Muitos empresários ainda preferem ter 100% de um negócio pequeno a 10% de um grande”, afirma Palmeira, do BNDES. Até hoje, nenhum laboratório nacional abriu o capital. Quem chegou mais perto foi o Farmasa, que no final de 2007 recebeu como sócio o GP Investimentos — há poucos dias, a Hypermarcas, empresa de produtos de consumo, adquiriu o Farmasa. Aché e Medley estão entre os pouquíssimos com gestão considerada profissionalizada, contando com presidentes que não têm o sobrenome das famílias fundadoras.
| Os bilhões fazem a diferença | |
| Um dos desafios que o superlaboratório brasileiro terá é o investimento em pesquisa. Compare a diferença de orçamentos anuais (em dólares) | |
| Total dos investimentos do grupo suíço Roche | 7 bilhões |
| Conjunto das farmacêuticas que atuam no Brasil | 285 milhões |
| Fontes: Febrafarma e Roche | |
Ninguém tem a resposta se haverá ou não no futuro um laboratório brasileiro global nem se o governo conseguirá atingir seus objetivos. Quanto a esse ponto, aliás, há uma polêmica. “Não acredito que o BNDES deveria colocar dinheiro público numa indústria que demanda tanto capital e apresenta tantos riscos quanto a farmacêutica”, afirma o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do banco. “Existem áreas em que o país tem mais vantagens comparativas, que deveriam ser priorizadas.” Entre os defensores da idéia, o argumento é que o BNDES pode ser apenas uma das fontes de recursos — como também pode ser o mercado de capitais — a dar as condições mínimas para um novo salto do setor. “Não se trata de um caminho fácil, mas considero perfeitamente plausível que o Brasil tenha uma Pfizer ou uma Roche daqui a 20 ou 25 anos”, diz João Carlos Ferreira, diretor comercial da subsidiária da suíça Roche. “Quando eu lia a respeito da Embraer, na década de 70, achava um delírio o Brasil aspirar a ter uma indústria de aviões e, felizmente, eu estava errado.” De fato, a Embraer — hoje uma das quatro maiores fabricantes de aviões do mundo — nasceu da iniciativa estatal, em 1969, e, privatizada, tornou-se símbolo da tecnologia de ponta nacional. Na época, vigorava no país o conceito de substituição de importações, atualmente um retrocesso, diante das práticas que moldam a globalização. O governo nega que esteja promovendo uma volta ao passado. “Não se trata de xenofobia, mas de estímulo para que a indústria brasileira, seja qual for a origem de seu capital, continue gerando emprego e tecnologia”, diz Miguel Jorge.

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