u Em poucos anos, o setor brasileiro de frigoríficos deixou o obscurantismo no mundo dos negócios para posicionar-se como um dos mais poderosos do mundo. No mercado global, o Brasil tornou-se o maior fornecedor — hoje, de cada 6 quilos de bife consumidos no planeta, 1 tem origem no país. As principais empresas processadoras de carne, historicamente associadas a práticas de negócios informais e ao baixo grau de profissionalização, cresceram ancoradas no excepcional desempenho das exportações, ganharam musculatura, adquiriram concorrentes menores e entraram no mercado de capitais — três delas abriram o capital na bolsa de valores e outras fizeram emissões de bônus. Com capital em mãos e beneficiados por custos competitivos, os frigoríficos viram a chance de expansão internacional. No ano passado, o JBS Friboi comprou a americana Swift e se tornou a maior empresa de produção de carne bovina do mundo. Essa trajetória ascendente agora enfrenta seu primeiro revés: falta boi para produzir carne. Com a escassez de matéria-prima, os custos subiram e a rentabilidade dos frigoríficos deteriorou-se rapidamente. O cenário é propício para que o processo de concentração do setor se acentue ainda mais. No começo de junho, os donos dos frigoríficos Quatro Marcos e Margen se associaram para criar uma nova empresa, a Uni Alimentos, que nasce com capacidade de abate diário de 18 500 animais, volume superior ao do Friboi no Brasil. Pelo menos um deles, o Margen, estaria em apuros financeiros, com dívida elevada e atraso no pagamento de fornecedores. A união das operações reduz custos para enfrentar os tempos — com perdão do trocadilho — de vacas magras. “Não podíamos esperar o mercado melhorar para fazer a associação”, diz Carlos Gradim, diretor de relações com investidores da Uni.
A pressa se explica. A baixa oferta do boi gordo aumentou em 40% o preço da arroba de carne nos últimos 12 meses. Como a carne representa de 60% a 80% dos custos dos frigoríficos, suas margens foram espremidas. “A situação está complicada, e isso vai aparecer nos próximos balanços das empresas do setor”, diz José Vicente Ferraz, diretor da consultoria AgraFNP. A complicação do mercado começou a ficar evidente no ano passado. Em 2006, o Brasil havia atingido o recorde histórico de abate de gado nos frigoríficos: 47 milhões de animais. Desde então, o volume entrou em declínio e, neste ano, a previsão é que o abate não passe de 43 milhões de cabeças. A capacidade frigorífica, porém, não parou de crescer, com a construção de novas unidades. Estimativas da Associação Nacional dos Confinadores indicam que a indústria brasileira de carne teria atualmente condições de abater 70 milhões de animais por ano. De acordo com previsões da consultoria MBAgro, apenas em 2023 os frigoríficos conseguirão ocupar plenamente essa capacidade. A falta de matéria-prima e seu custo em alta já estariam levando alguns frigoríficos menores a nocaute. O IFC, instalado no interior de São Paulo, paralisou as atividades.
Como qualquer setor da economia, o agronegócio também está sujeito ao desencontro entre oferta e demanda. No ramo de carne, enquanto a indústria frigorífica se expandiu e se capitalizou, os pecuaristas enfrentaram anos de baixa rentabilidade e acabaram seduzidos pela agricultura, sobretudo pela cultura de cana. O criador Alfredo Neves Filho, de Araçatuba, no interior de São Paulo, foi um deles. Há mais de 50 anos no setor, ele arrendou 1 300 hectares de sua fazenda a uma usina de açúcar e álcool e reduziu o rebanho de 4 000 para 1 000 cabeças. “A defasagem de preços e os altos custos desestimularam a atividade na região”, afirma Neves Filho. O mesmo movimento vem ocorrendo em Mato Grosso do Sul e Goiás, estados onde as usinas de etanol avançam com força.
Além do efeito imediato que a retração da pecuária já produziu, o problema é que poderá levar tempo para que a atividade se recomponha. Quem mudou para a agricultura foi obrigado a derrubar cercas e cochos para a entrada de plantadeiras e colheitadeiras. “O pecuarista que parte para a cana dificilmente volta para a criação de gado”, diz o analista Fabiano Tito Rosa, da Scot Consultoria. Ao mesmo tempo, o ambiente tornou-se favorável para a especulação com os preços da carne. Previsões da AgraFNP indicam que o valor da arroba, hoje inferior a 90 reais, deve alcançar 100 reais ainda neste ano — preço já apontado nos contratos futuros de boi gordo na BM&F. De olho no aumento das cotações, pecuaristas estão aumentando o rebanho de matrizes no pasto para ampliar a reprodução de bezerros. Só que será preciso esperar que os filhotes nasçam e atinjam idade de abate. “A situação só voltará ao normal em 2011”, diz Ferraz, da AgraFNP.
A falta de gado também afeta um terreno em que o Brasil vinha ganhando espaço nos últimos dez anos: a exportação. Em primeiro lugar porque, com a melhoria da renda da população, o consumo interno cresceu e está absorvendo uma parcela maior da produção — o que reduz o excedente exportável. Além disso, no mercado internacional a carne brasileira está perdendo competitividade. No início do ano passado, era exportada por 25 dólares a arroba. Hoje, o preço é o dobro. Com essa variação, o bife brasileiro, que vinha se consagrando como um dos mais competitivos do mundo, tornou-se mais caro que os de Argentina, Uruguai e Austrália — e de preço quase igual ao da carne dos Estados Unidos. A perda de competitividade é fruto da combinação de encarecimento da matéria-prima com valorização do real. “Nossa carne ficou tão cara que clientes no Chile deixaram de comprar de nós”, diz Mauro Pilz, sócio do frigorífico Mercosul. Por outro lado, num mercado importante, o da União Européia, os exportadores estão fragilizados pela manutenção de um embargo à carne brasileira. Tudo somado, a expectativa é que o volume total de exportações de carne bovina do Brasil caia entre 10% e 15% neste ano.
Olhando para a frente, todavia, as perspectivas do setor continuam a ser otimistas. Há mais gente no planeta, comendo mais e melhor. O Brasil é o país com melhores condições de ampliar a oferta de alimentos no mundo. Por isso, a despeito da dificuldade do momento, os maiores frigoríficos não estão deixando de investir. O Minerva, por exemplo, tem duas unidades em construção, uma no Pará e outra em Rondônia. O Mercosul também deve inaugurar um abatedouro no Pará até o final de 2008. Já o Independência está abrindo três novas unidades em Mato Grosso. Embora tais movimentos possam se justificar num cenário de longo prazo, fazem crescer o descompasso entre capacidade de abate e oferta de gado. Por isso, alguns frigoríficos tentam contornar o problema da escassez de boi. O Minerva arrendou fazendas no interior de São Paulo para confinar 50 000 cabeças e criar uma espécie de estoque de emergência. O Marfrig começou a investir em outros negócios. Em março, comprou dois abatedouros de aves. O recém-criado Uni também está construindo um abatedouro de aves e já opera com três unidades de suínos.
O fato é que, a despeito de perspectivas favoráveis no futuro, os frigoríficos terão de conviver com um cenário de rentabilidade bem menor do que no passado. Na apresentação de resultados do JBS Friboi feita em maio, Joesley Batista, presidente da empresa, avisou ao mercado que a margem de lucro operacional em 2008 deve ficar entre 5% e 6% da receita — chegou a ser de 14% nos últimos dois anos. Se esse patamar de rentabilidade se firmar como padrão para os frigoríficos, uma nova fase de ajustes de gestão para reduzir custos será necessária. O mesmo processo ocorreu na década passada, quando muitas empresas que operavam na ilegalidade, sonegando impostos, foram obrigadas a se adequar ao mercado formal. Alguns frigoríficos, sobretudo os menores, quebraram e acabaram comprados pelos concorrentes. Foi assim que os gigantes da carne ganharam escala. “Acho que em 2009 teremos várias oportunidades de aquisição no Brasil”, disse Batista a analistas de mercado. Consolidação será, portanto, a melhor resposta do setor ao período de vacas magras.
