Para a imensa maioria das pessoas, uma viagem de avião deve ser não mais que insípida, inodora e, de preferência, indolor. Quanto mais moderna a aeronave, melhor. Mas há quem sinta saudade dos tempos em que os passageiros eram ensurdecidos pelo barulho das hélices, voavam sob enervante trepidação e podiam colocar a cabeça para fora das janelas. Para esses amantes dos velhos tempos, surgiu uma excelente notícia. Em breve, um avião como o que aparece nestas páginas fará rotas internacionais carregando passageiros de todo o mundo. Trata-se de um Lockheed Constellation L-1649A, mais conhecido como Starliner. Construído na década de 50, o modelo entrou para a história da aviação mundial ao ser o primeiro avião a fazer uma viagem de 23 horas sem escalas. Embora potente para a época, o Starliner freqüentemente retornava ao aeroporto logo após decolar por dificuldades mecânicas. Quadrimotor com hélices, o avião se aquecia muito no chão e sua violenta vibração partia os fios elétricos. Uma informação suficiente para dar calafrios nos mais sensíveis. Mas, amantes da aviação, alegrem-se. Quando o Starliner voltar para as pistas dos aeroportos, essas dificuldades farão parte do passado. O avião voará com a mesma segurança oferecida por uma aeronave moderna. A responsável pela façanha é a companhia aérea alemã Lufthansa, que vai restaurá-lo para oferecer a seus clientes vôos com clima de nostalgia. O primeiro vôo do Starliner recauchutado, cujo trajeto ainda não foi definido, está marcado para o início de 2010. “Fazer o Starliner voltar a voar será um marco profissional e emocional para todos os envolvidos”, disse a EXAME August Henningsen, executivo da Lufthansa responsável pela restauração.
Para impressionar os futuros passageiros, a Lufthansa optou por restaurar a versão mais glamourosa do Starliner. Enquanto o modelo tradicional tem 86 assentos, o mais luxuoso tem apenas 36. Isso significa mais espaço e conforto, com poltronas originais que, além de se transformar em camas, poderão ficar atrás de cortinas para maior privacidade. A aeronave terá ainda som ambiente e uma cozinha de primeira linha. Nada de barrinhas de cereal ou sanduíches quase congelados, portanto. As janelas originais, grandes e redondas, também serão mantidas e ganharão cortinas de tecido. Até o uniforme da tripulação e o serviço prestado serão como na década de 50. Mas somente o visual da aeronave remeterá ao passado. A cabine do piloto será equipada com o mesmo sistema de radionavegação utilizado nos aviões modernos, a fim de evitar os problemas técnicos do passado. Por motivos de segurança, serão incluídos consoles e mostradores similares aos do Boeing 747.
O desafio de fazer o Starliner voar novamente atraiu dezenas de engenheiros e técnicos, que se ofereceram como voluntários para ressuscitar a aeronave. Inicialmente, foram escolhidos dez profissionais aposentados da Lufthansa, com décadas de experiência em mecânica de aviões. Não é a primeira vez que acontece um mutirão dessa natureza. Em 1987, a empresa decidiu restaurar um Junker JU-52, fabricado nas décadas de 30 e 40. A restauração foi tão bem-sucedida que ainda hoje, 21 anos depois, a aeronave faz vôos regulares com passageiros, por cerca de 400 dólares. “Foi uma das experiências mais marcantes de minha vida”, diz o economista Mario Sampaio, que voou no Junker da Lufthansa. Aviões antigos costumam ser recuperados por colecionadores para uso próprio ou por museus para ser expostos, como no Asas de um Sonho, da TAM. A Swiss Air chegou a recuperar, há 11 anos, um Douglas DC-4 para voar com passageiros. Mas o vôo aconteceu apenas no ano de 1997, da Irlanda para Nova York, para comemorar o 50o aniversário da companhia. Cada um dos 17 passageiros desembolsou 9 900 dólares para ter o privilégio.

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