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A China terá de enfrentar o dragão

| 26/06/2008

De todos os bancos centrais do mundo, o chinês é o que tem mais condições de reverter a tendência de alta de preços mundiais. Mas, para que isso aconteça, o governo comunista precisa ter coragem de enfrentar as instabilidades políticas que virão

 

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Por Bill Emmott

exame

Num piscar de olhos, os mercados emergentes se transformaram de agentes de deflação do mercado global em fontes de uma nova onda de inflação mundial. O mecanismo é o preço do petróleo e, em menor escala, o dos alimentos, ambos impelidos pela forte demanda da China e de outros países. E a transmissão dessa pressão inflacionária está sendo feita por meio de uma commodity ainda mais fundamental: o dinheiro. O excesso de liquidez em países que vão da China à Rússia, da Índia à Arábia Saudita, provocou altas nas taxas de inflação em todo o mundo. Agora que está, de fato, acontecendo, isso não parece surpreender. Mas quando o aperto do crédito começou nos países desenvolvidos, em agosto do ano passado, o risco maior parecia ser o de uma deflação. A poupança abundante nos mercados emergentes oferecia, naquele momento, apenas a esperança de que seria possível evitar uma espiral deflacionária.

Quando as perdas com as hipotecas aumentaram e os prejuízos se alastraram para papéis complexos retidos principalmente por bancos americanos e europeus, o maior perigo parecia ser uma diminuição dos empréstimos bancários. Caso isso se concretizasse, poderia desencadear um círculo vicioso de falências, mais prejuízos e um aperto ainda maior das condições de empréstimo. Foram as injeções de capital de fundos asiáticos e árabes em bancos ocidentais que ajudaram a impedir a progressão desse ciclo. Além disso, a demanda de importações e o investimento contínuo em infra-estrutura na Ásia e no Golfo Pérsico estão ajudando a segurar o comércio global e, com ele, a atividade econômica em geral. Por enquanto, a primeira parte desse sonho se tornou realidade: não há sinais de deflação nos Estados Unidos ou na Europa e a contração do crédito não se tornou terrível, por maiores que sejam as dificuldades do setor bancário. A segunda parte desse sonho continua parecendo plausível: o crescimento global desacelerou da alta taxa de mais de 4,5% observada em 2006-07, mas, até agora, só diminuiu o ritmo para cerca de 4,3%. Isso não é, de maneira alguma, um desastre. O que pode se mostrar desastroso, porém, são as conseqüências inflacionárias dessa profusão de capital asiático e árabe.

Em 2007, a inflação anual acelerou de 3% para 7,7% na China, de 7,8% para 15% na Rússia, de 6,7% para 8,7% na Índia, de 2,9% para 10,5% na Arábia Saudita e de 3% para 5% no Brasil. Parte do problema surgiu por causa das baixas taxas de juro americanas: os cortes do Federal Reserve, o banco central americano, foram acompanhados por bancos centrais em muitos desses mercados emergentes, ou então esses bancos deixaram suas taxas inalteradas quando as deveriam ter elevado para reduzir o crescimento da oferta monetária. Isso, porém, é apenas uma maneira de dizer que o problema surgiu em razão de políticas cambiais. Para controlar a taxa de câmbio ante o dólar, bancos centrais mantiveram as taxas de juro baixas e aumentaram suas reservas em moedas estrangeiras comprando dólares ou euros, o que acabou permitindo que parte do afluxo aumentasse a oferta monetária doméstica. Não é esse o caso do Brasil, onde o real aumentou firmemente frente ao dólar, mas essa explicação vale para a China, onde o yuan aumentou pouco em relação ao dólar e se desvalorizou em relação ao euro no ano passado.

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