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Cristina contra nós

 | 26.06.2008

As medidas que a presidente argentina adota contra a crise pioram o ambiente de negócios — e tornam torturante o dia-a-dia das empresas brasileiras que atuam no país

 

Cristina Kirchner: populista sem o apoio da população

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Por Roberta Paduan, de Buenos Aires e Córdoba

EXAME 

Histérica, arrogante e prepotente. Os três adjetivos estão entre os mais utilizados pela população argentina para definir a presidente Cristina Kirchner. A bronca popular chegou ao ponto máximo nas últimas semanas e explodiu em panelaços por todo o país. No pano de fundo, a crise econômica que assola um país que poderia ser um dos maiores beneficiários da fome mundial por commodities. E, como o povo argentino já percebeu, Cristina é a maior patrocinadora das piores convulsões que o país vive desde a crise que jogou a Argentina na lona, no início desta década. O imbróglio começou em 11 de março, apenas dois meses após sua posse como presidente, sucedendo o marido, Néstor. Na época, Cristina decidiu aumentar o imposto de exportação de grãos dos já pesados 30% para 40% — uma medida de caráter populista, tomada para supostamente conter a alta dos preços dos alimentos. Começava a inglória e infrutífera batalha de Cristina Kirchner contra o mundo globalizado. A determinação indignou os ruralistas, que, no dia seguinte, começaram a fechar estradas e suspenderam as exportações de soja e trigo. Os protestos, que já duram quase quatro meses (até o fechamento desta edição, em 23 de junho, governo e agricultores não haviam chegado a um acordo), vêm afetando todos os setores da economia e interferindo na vida da população e das empresas, incluindo as subsidiárias de grupos brasileiros, muitos dos quais investiram recentemente na Argentina. Produzir — e viver — na Argentina virou um transtorno.

Em junho, várias fábricas de Córdoba, um dos principais pólos industriais do país, deram licença remunerada aos funcionários por falta de matérias-primas, que não alcançaram o destino por causa das estradas bloqueadas. Alimentos não chegam às prateleiras dos supermercados do interior do país, onde a quantidade vendida por pessoa tem sido controlada. Imagens de leite sendo despejado de caminhões-tanque no asfalto por causa dos bloqueios rodoviários enfureceram a população. Os combustíveis tornaram-se produtos raros fora da província de Buenos Aires, a menos afetada pela crise. Nos postos em que os produtos são encontrados, os preços estão bem acima do normal. Nos dias em que EXAME esteve no país, a crise atingiu o ápice, pelo menos por enquanto. A prisão de um líder agrário, mesmo que por poucas horas, foi suficiente para despertar panelaços convocados por celular. Na noite de 16 de junho ocorreram as manifestações mais fortes contra o governo. Em resposta à mobilização contrária à mulher, o ex-presidente Néstor Kirchner, que comanda o Partido Justicialista, convocou uma manisfestação de apoio ao governo na Praça de Maio. Minutos após a fala de Néstor, comerciantes do mais tradicional shopping center de Buenos Aires, a Galeria Pacífico, começaram a afixar cartazes informando que as lojas fechariam às 15 horas no dia seguinte. O conflito havia subido de tom. “Estamos quase numa guerra civil”, afirmou o vendedor de uma loja de Buenos Aires. Temendo um confronto mais grave, líderes agrários foram à TV arrefecer os ânimos.

A Argentina tornou-se um país hostil a quem faz negócios, e isso não poupa os empresários brasileiros que nos últimos anos se instalaram no país. Quando Cristina Kirchner declara guerra às “injustiças” da globalização, acerta, por tabela, em companhias brasileiras que viram no país vizinho um atalho para sua internacionalização. O setor da carne é um dos mais afetados. No início do ano, o governo baixou a norma de que só poderá exportar a empresa que tiver 75% dos armazéns estocados com carne para abastecer o mercado interno. Além disso, estabeleceu cotas de exportação por frigorífico. A cada venda internacional, as empresas têm de pedir autorização à Secretaria de Comércio Interno. A política fez com que o grupo Marfrig — que adquiriu a argentina Quickfood, com oito fábricas, no ano passado — exportasse desde então 25% menos do que poderia. Os atrasos em razão dos problemas com transporte e com o aumento da burocracia de exportação fizeram com que a Quickfood Marfrig embarcasse 250 toneladas de carne a mais por avião do que faria normalmente. O custo subiu em 500 000 dólares. Em maio, uma das fábricas da empresa permaneceu fechada por duas semanas. “Num dia não chegava gado para ser abatido, no outro a câmara frigorífica estava lotada porque não podíamos escoar a carne devido às estradas bloqueadas”, diz Renato Macedo, presidente do Marfrig na Argentina. Problemas semelhantes ocorreram com a concorrente Swift, da brasileira Friboi, maior produtora de carne do mundo.

A MWM, fabricante de motores e autopeças de capital americano, mas com comando regional sediado no Brasil, prevê que terá aumento de 20% nos custos operacionais neste ano. As reposições salariais são um dos componentes que mais estão pesando. Em 2006, a MWM reajustou os salários dos funcionários em 30% e, no ano passado, aplicou mais 20% de aumento. Neste ano, o sindicato dos metalúrgicos reivindica novamente 30% e, embora a data-base seja em novembro, pediu para antecipar o acordo em três meses. “É claro que nossa margem tem sido prejudicada, pois não dá para repassar toda elevação de custo para o nosso preço”, afirma Eduardo Nuti, presidente da subsidiária argentina da MWM. “O governo diz que a inflação é de 9%, mas as pessoas vão ao mercado e vêem que os produtos subiram mais que isso. Quando há essa quebra de parâmetro, as negociações sindicais ficam na base do ‘eu acho’, de um lado, e ‘o sindicato acha’, de outro.”

Os problemas atuais representam um choque de realidade para uma economia que, até pouco tempo atrás, chegou a animar muitos economistas mundo afora, inclusive no Brasil. A tendência intervencionista dos Kirchner se acentuou de 2006 para cá, quando o país começou a sofrer com o aumento da inflação. Até então, a economia argentina vinha se recuperando velozmente, mas sem pressionar os preços. Isso porque a queda da atividade econômica havia sido tão forte no início da década que, durante um bom tempo, foi possível crescer utilizando a capacidade ociosa da indústria. Nos últimos dois anos, no entanto, a capacidade chegou ao limite em vários setores. Em vez de atacar os problemas, Néstor e, agora, Cristina preferiram escondê-los. No início de 2007, o então presidente interveio no instituto que mede o índice de preços do país, afastando do órgão funcionários que se opunham às mudanças exigidas para divulgar números de inflação mais moderados. No ano passado, a inflação oficial foi de 8,8%, enquanto as consultorias econômicas independentes estimavam que o índice real tenha ficado entre 20% e 24%. Neste ano, o governo fala em 9%, enquanto analistas projetam até 30% de alta dos preços.

Disputando com a inflação o topo do ranking de preocupações das empresas brasileiras operando na Argentina está o medo do desabastecimento energético. Nos últimos cinco anos praticamente não houve investimento em geração de energia na Argentina, em razão da política de congelamento de preços de serviços públicos. Mais uma vez, o governo, entre a lógica e o populismo, optou pelo segundo. “Não há investidor que entre em um negócio que não lhe pagará o investimento”, afirma Francisco Susmel, economista e sócio argentino da Rio Bravo, gestora de investimentos capitaneada por Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central do Brasil. No ano passado, o país sofreu vários apagões durante o inverno. Diante da falta de oferta, a Argentina tornou-se dependente do gás da Bolívia e tem de receber energia elétrica do Brasil para não ficar às escuras. Neste ano, a Loma Negra, maior fabricante de cimento do país, comprada pelo grupo Camargo Corrêa no final de 2005, conta com um plano de contingência caso falte gás. A empresa investiu 30 milhões de dólares na adaptação de instalações para poder operar com coque e carvão, em vez de gás. O plano de contingência inclui importação de coque, do México, e de carvão, da África do Sul. “É claro que os custos sobem, mas não podemos correr o risco de ter a operação paralisada”, afirma Humberto Farias, presidente da Loma Negra.

Mas talvez ninguém tenha sofrido tanto com a crise atual quanto as empresas de logística, que estão no epicentro dos confrontos entre governo e agricultores. Em abril, Antonio Wrobleski, presidente da Ryder Logística do Brasil, montou um comitê de crise para gerenciar a operação na Argentina. Todos os dias, ao meio-dia, a equipe se reúne para fazer o balanço da operação e definir providências. São quatro pessoas no Brasil, três na Argentina e duas postadas na fronteira entre os dois países. A Ryder é responsável por 10% do trânsito rodoviário de cargas entre Brasil e Argentina. Em 13 de junho, 130 dos 600 caminhões da empresa que fazem transporte no Mercosul estavam parados em bloqueios nas estradas argentinas. Viagens que demoravam três dias passaram a levar cinco. “Nas fases mais duras, enviamos seis aviões por dia com peças para montadoras instaladas lá”, diz Wrobleski. “É mais caro, mas, em alguns casos, o prejuízo é maior se os clientes tiverem de parar a produção.” O nível de atenção sobre as duas subsidiárias do grupo paulista Gafor — que atua em logística e comércio de produtos químicos — também aumentou. “Pedi que os presidentes das unidades passassem a enviar relatórios semanais das operações, em vez de mensais”, afirma Sérgio Maggi, presidente do grupo. Na Gafor Distribuidora, a segunda em comercialização de solventes no país, houve queda de 11% nas vendas e aumento de 24% na inadimplência. “O cliente me diz que não recebeu do seu cliente e, por isso, não pode me pagar”, diz Roberto Restivo, presidente da empresa. “Há também menos crédito no mercado porque os bancos estão mais rigorosos nos empréstimos.”

Como seria de esperar, a coleção de medidas do governo desafinadas com as regras do mundo globalizado está aumentando a desconfiança em relação ao futuro da economia argentina. Há dois meses, a Artecola, fabricante brasileira de adesivos e rótulos, registrou atrasos incomuns na importação de matérias-primas químicas. Motivo: seus fornecedores estrangeiros começaram a ter dúvida se deveriam manter as remessas para as subsidiárias argentinas. “Eles têm medo de que o atual conflito evolua para uma crise financeira e as empresas não consigam pagar suas dívidas”, afirma Estevão Exner, diretor comercial da Artecola na Argentina. A saída encontrada foi apelar a uma “carta de conforto”, que garante que a matriz brasileira se responsabiliza pelos pagamentos da subsidiária caso haja algum problema no país.

Vida dura no sul
Alguns dos problemas enfrentados por empresas brasileiras na Argentina
Quickfood Marfrig
Maior frigorífico e maior exportador da Argentina
Problemas
O governo limitou as vendas ao exterior — só autoriza a exportação dos frigoríficos que estocam 75% da produção para o mercado interno
Conseqüências
Ficou 50 dias sem exportar e fechou uma fábrica por duas semanas. Com dificuldade no transporte, embarcou 250 toneladas de carne por avião
Loma Negra
Cimenteira adquirida em 2005 pelo grupo Camargo Corrêa
Problemas
Insegurança em relação ao abastecimento de gás. A Argentina recebe gás da Bolívia, que está com a capacidade de fornecimento no limite
Conseqüências
Passou a importar navios inteiros de coque, do México, e de carvão, da África do Sul, para substituir a operação a gás, elevando seus custos de produção
Gafor Distribuidora
Segunda maior distribuidora de solventes do país
Problemas
Os clientes têm tido dificuldade em obter créditos nos bancos; há desaquecimento no mercado de defensivos, um dos principais para a empresa
Conseqüências
As vendas caíram 11% em maio, o índice de inadimplência cresceu 24% e os clientes pedem prazo maior para pagamento
MWM International(1)
Fabricante de motores e autopeças
Problemas
Aumento de custos, principalmente da folha de pagamentos, em razão da inflação, que levou os sindicatos a reivindicar aumento de salários
Conseqüências
Os salários foram aumentados em 20% desde 2007. Neste ano, o sindicato pede reajuste de 30% e antecipação de novembro para agosto
Ryder Logística(1)
Realiza 10% do transporte rodoviário Brasil–Argentina
Problemas
Dificuldades de operação devido aos bloqueios das estradas organizados pelos agricultores, que protestam contra o governo
Conseqüências
Aumento médio de 50% no tempo das viagens — em 13 de junho, 130 caminhões da empresa estavam parados nos bloqueios das estradas
Fonte: empresas (1) Empresas de capital americano, mas com comando regional sediado no Brasil

Tudo leva a crer que Cristina Kirchner escolheu o tipo de caminho que historicamente reserva um final infeliz aos governantes. Elegeu os empresários como inimigos, isolou-se no poder e — o que pode haver de pior para um populista? — nem sequer pode contar com o apoio popular. Ainda não se sabe como ela conseguirá equilibrar a situação nos próximos três anos e meio que lhe restam de governo — sua aprovação caiu de 56%, em janeiro, para 26%, em junho. Para as empresas brasileiras, o quadro é preocupante. A Argentina é um mercado estratégico: quase 10% do que o Brasil exporta vai para lá. Nos últimos cinco anos, grupos brasileiros investiram 8 bilhões de dólares no país — no ano passado, o Brasil foi o maior investidor estrangeiro. Essas empresas foram para lá apostando no potencial do vizinho, que deveria estar numa fase de ouro. Afinal, a Argentina, assim como o Brasil, é um dos maiores fornecedores de alimentos do mundo e nos últimos anos vem se beneficiando da alta do consumo de grãos e carnes, bem como de preços melhores para seus produtos. A falta de soluções para os problemas estruturais e a crença em atalhos para o desenvolvimento por meio de políticas ruinosas para o ambiente de negócios estão fazendo com que uma grande oportunidade seja perdida. Nesse campo, a torcida brasileira é a favor de que a Argentina vire o jogo, e logo.

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Publicado por Tiago César Oliveira (30/06/2008 - 11:56)


Alguém já disse que essa crítica de textos do site é uma mercadoria?
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