Há apenas dez meses, as duas principais bolsas brasileiras — a BM&F, de futuros, e a Bovespa, de valores — eram empresas separadas, sem fins lucrativos, pertencentes a seus respectivos corretores e administradas como se fossem uma espécie de clube (o dinheiro que sobrava em caixa, por exemplo, tinha de ser obrigatoriamente reinvestido). Desde então, as duas bolsas se tornaram sociedades anônimas, fizeram cada uma seu IPO, passaram a pertencer a dezenas de milhares de acionistas e, como se tudo isso não fosse o bastante, decidiram se fundir, dando origem à terceira maior bolsa do mundo por valor de mercado. Agora, a superbolsa prepara o próximo passo. “Em menos de dois meses, vamos colocar o pé fora do Brasil”, diz Edemir Pinto, economista paulista de 55 anos, ex-funcionário da BM&F e novo presidente da empresa. “Se antes da fusão a gente já corria a 100 quilômetros por hora, agora aumentamos a velocidade para 150. Queremos iniciar logo o processo de internacionalização.” O primeiro passo lá fora será dado até o final de agosto na Colômbia e, ainda em 2008, o mesmo será feito no Chile e, depois, no Peru. A idéia é montar um projeto piloto para o mercado colombiano e adaptá-lo ao longo do caminho. A investida começa a partir de um contato com órgãos reguladores domésticos, seguido de uma proposta de parceria com as bolsas e a abordagem das empresas locais. No caso da Colômbia, dona da segunda maior bolsa da América do Sul, o que atrai a atenção de Edemir são as boas perspectivas de crescimento do país e o fato de contar com uma legislação financeira semelhante à brasileira. “Queremos dividir nossa experiência em áreas como gerenciamento de risco para ajudá-los a se desenvolver e, ao mesmo tempo, atrair as grandes empresas para a bolsa brasileira”, diz.
Preste atenção no verbo constantemente utilizado por Edemir — querer. Na verdade, o mais apropriado seria utilizar outro — precisar. Por trás de toda a estratégia da nova bolsa brasileira está a urgência em ser grande. Grande o suficiente para sobreviver num mundo de poucos e poderosos pregões. A BM&F Bovespa terá de se transformar num pólo financeiro e convencer investidores e companhias — num primeiro momento latino-americanos — a ver o mercado brasileiro como uma alternativa a Nova York, Londres e Chicago. A contar pelo histórico, será uma tarefa difícil. Mesmo com todo o sucesso dos IPOs na bolsa de valores brasileira nos últimos três anos, até hoje apenas o Banco Patagonia, da Argentina, escolheu a Bovespa para lançar suas ações. E é bom não ignorar a disposição para a resistência de outras bolsas sul-americanas a fortalecer uma concorrente brasileira, por mais que isso tenha lógica. “Vamos abraçar para valer o plano de virar um pólo, inclusive estreitando nossas relações com bolsas de outros continentes, focando na relação Sul-Sul”, diz Gilberto Mifano, executivo que trabalhou 16 anos na Bovespa e hoje ocupa o posto de presidente do conselho da BM&F Bovespa. “Desde que anunciamos a fusão, começamos a ser procurados por bolsas dos quatro cantos do planeta.”
| Edemir Pinto, CEO da BM&F Bovespa |
| Idade 55 anos |
| Formação Economista |
| Tempo de bolsa Começou na BM&F há 22 anos. Depois de um ano de sua contratação, foi promovido a diretor de clearing. Em 1999, tornou-se diretor-geral MISSÃO Transformar a BM&F Bovespa em um grande pólo financeiro mundial |
| Família Casado, tem duas filhas |
O pano de fundo para toda essa movimentação é o inédito processo de consolidação atualmente em curso no mundo. Aproveitando a enorme liquidez no mercado internacional, as bolsas americanas e européias intensificaram o processo de aquisições. Nos últimos dois anos, as compras no setor movimentaram cerca de 40 bilhões de dólares em todo o mundo. Em 2007, a bolsa de Nova York fundiu-se com a Euronext — essa já resultado da fusão das bolsas de Paris, Amsterdã e Bruxelas. Também na Europa, foi formado o OMX Group, a partir da união das bolsas da Suécia, Dinamarca, Finlândia, Estônia e Lituânia, e, em fevereiro deste ano, o grupo acabou sendo comprado pela americana Nasdaq. Mais recentemente, a Bolsa Mercantil de Nova York foi adquirida pela Chicago Mercantile Exchange. Todos esses episódios mudaram a visão de mundo das bolsas brasileiras. “Diante do perigo de se tornarem insignificantes ou serem engolidas por concorrentes cada dia mais agressivos, as duas bolsas brasileiras se viram forçadas a se reinventar”, diz Ricardo Humberto, professor de finanças da Fundação Instituto de Administração, de São Paulo.
Dá para uma bolsa de um país emergente sobreviver nesse mundo? Difícil saber. Mas essa é a obsessão de Edemir, o novo homem forte do mercado de capitais brasileiro. Conhecido como um trator, ele mantém uma carga diária de trabalho de 15 horas. Por isso, sua mulher, com quem tem duas filhas — uma de 28 anos e outra de 8 —, costuma dizer que a vida de Edemir é a bolsa (os amigos dizem que as outras paixões são a família e o São Paulo Futebol Clube). Antes de entrar na BM&F, em meados dos anos 80, Edemir trabalhava no departamento financeiro da Editora Abril (que edita EXAME), em São Paulo. Quando foi sondado para mudar de emprego, quase não aceitou a proposta — seu conhecimento sobre o mercado de futuros era quase zero. Menos de dois anos depois, já havia sido promovido a diretor. Em 1999, Edemir se tornou o principal executivo da bolsa e foi o mentor do elogiado sistema de clearings e do banco da BM&F, a parte da bolsa que faz a liquidação das operações. A obstinação com que se lança a novos projetos não deixa de suscitar resistências. “Ele defende tanto suas idéias que, ao ser confrontado com um plano diferente, muitas vezes demora a mudar de idéia e acaba sendo teimoso”, diz um dono de corretora que prefere ficar no anonimato. Outra crítica é que ele centraliza demais a tomada de decisões.
A maior conquista da carreira de Edemir, sua indicação para o cargo de presidente da nova bolsa, teve direito a suspense até a última hora. Momentos antes de começar a reunião de conselho que definiria os nomes do presidente executivo e do presidente do conselho, no dia 20 de maio, a dança das cadeiras estava a pleno vapor. Manoel Felix Cintra Neto, presidente do conselho da extinta BM&F, insistia em pleitear o mesmo cargo no conselho da nova bolsa. De forma sutil, alguns conselheiros influentes já tinham dado a entender que os dois principais rostos das antigas bolsas — Cintra Neto e Raymundo Magliano Filho — deveriam abrir espaço para a geração mais nova, em particular para Edemir e Mifano, tidos como os profissionais que mais conhecem o negócio bolsa no Brasil. Se Cintra Neto ocupasse a cadeira de presidente do conselho, haveria uma briga entre Mifano e Edemir pela vaga de presidente executivo. O mesmo aconteceria se fosse contratado um presidente de conselho de fora da bolsa, o que chegou a ser cogitado. Uma hora antes do início da reunião, Cintra Neto decidiu recuar e a fórmula de consenso, com a dobradinha Mifano e Edemir, foi aprovada por unanimidade.
Nos próximos meses, a missão mais delicada de Edemir será a definição sobre quem fica e quem sai. A BM&F Bovespa tem 1 400 funcionários, mas cerca de 300 devem perder o emprego. Logo depois do anúncio da fusão, os acionistas ouviram que as sinergias permitiriam uma redução de custos de 25% até o final de 2010 — cerca de 125 milhões de reais. Desse total, 30% devem vir de economias com cortes de pessoal — os outros 70% sairão da área de tecnologia. O planejamento prevê que até setembro já estejam definidos os diretores, gerentes e coordenadores que serão aproveitados. “Não vamos realizar os cortes de pessoal de maneira igual entre os funcionários da Bovespa e da BM&F”, diz Edemir. “Vamos seguir à risca a mensagem do conselho de buscar a renovação e a profissionalização.” Se a nova bolsa sobreviverá num mundo de competição crescente e prevalência do mais forte é um grande ponto de interrogação. Mas não parece faltar disposição a seus principais executivos de partir para a briga.

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