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 | 26.06.2008

As financeiras já foram a única opção para os consumidores de baixa renda que precisavam de empréstimos. Hoje, perdem espaço para formas mais modernas de crédito, como os cartões e o consignado

 

Germano Lüders

A comerciante paulista Neli Maia: ela trocou a financeira pelo cartão de crédito

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Por Giuliana Napolitano

EXAME 

As operações das financeiras, instituições especializadas em conceder crédito à baixa renda, já foram o melhor termômetro da explosão do consumo popular no Brasil. As ruas dos grandes centros urbanos costumavam ficar apinhadas de funcionários de financeiras que abordavam quase todo pedestre para oferecer empréstimos. Há cerca de cinco anos, os financiamentos concedidos por essas empresas chegaram a representar 70% de todo o crédito pessoal do país. Hoje, porém, a situação é bem diferente: as financeiras praticamente desapareceram das ruas e sua participação de mercado diminuiu drasticamente, para 10%. Em meio a um mercado de crédito em plena expansão, essas empresas sofrem com a falta de clientes. A aversão dos brasileiros às financeiras ficou clara num estudo inédito concluído neste ano pela consultoria Roland Berger. Para as famílias que recebem de três a seis salários mínimos por mês, as financeiras são apenas a quinta opção na hora de buscar financiamento. Perdem para empréstimos bancários, cheques pré-datados, cartões de crédito e crediários de lojas.

O que afasta a baixa renda dessas instituições é um modelo de negócios que se mostra cada vez mais obsoleto num momento em que o mercado de crédito passa por uma de suas maiores transformações. As financeiras sempre ganharam dinheiro emprestando a quem não tinha acesso ao sistema financeiro tradicional — trabalhadores informais, sem renda ou sem documentos suficientes para passar no rígido crivo dos bancos, ou aqueles que acumulavam dívidas em outras instituições. O risco elevado desses clientes era compensado com a cobrança de juros altíssimos, que beiravam 10% ao mês. “Esse sistema funcionou bem no passado porque a maioria dos consumidores de baixa renda não tinha escolha”, diz Hilgo Gonçalves, diretor-superintendente da financeira Losango, do banco HSBC. “O cenário mudou recentemente, quando surgiram novas alternativas para esse público.”

A principal novidade foi a regulamentação do crédito consignado, modalidade em que as prestações são descontadas diretamente do salário do devedor ou — o que tem feito mais sucesso — das pensões recebidas da Previdência Social. Como o risco é pequeno, os juros são baixos: giram em torno de 2% ao mês. Apoiado principalmente na demanda dos aposentados do INSS (que recebem, no melhor dos casos, pouco mais de 3 000 reais por mês), o volume desses empréstimos aumentou mais de sete vezes, para 69 bilhões de reais, de 2004 para cá. Outra opção que tem feito sucesso entre a baixa renda são os cartões de crédito “populares”, especialmente aqueles que são fornecidos por lojistas. Atualmente, há 150 milhões desses cartões no país, ante os 97 milhões de cartões convencionais, segundo a Abecs, associação que representa o setor. Um cartão de crédito foi a alternativa de financiamento escolhida pela comerciante Neli Maia, que produz e vende artesanatos para decoração na Ceagesp, a central de distribuição de alimentos de São Paulo. Ela mantém distância das financeiras desde 2006, quando terminou de pagar as 18 prestações de um empréstimo de 5 000 reais. Com os juros, acabou desembolsando quase 11 000 reais para quitar a dívida. “Conseguir o crédito foi fácil, o problema foi terminar de pagar”, diz Neli. “Pode até acontecer de eu ter de cancelar uma compra no caixa porque o cartão está no limite, mas eu prefiro isso a ficar com um empréstimo que não termina nunca.”

Mais do que um revés para as finan-ceiras, essas mudanças são uma evidência de que o sistema brasileiro de crédito está se sofisticando. “Começa a se desenhar aqui um cenário que é realidade em países desenvolvidos”, diz Armando Gonçalves, especialista em finanças da consultoria Accenture. Em mercados mais modernos, só recorre a essas linhas caríssimas de empréstimos quem não tem acesso a alternativas mais vantajosas. Para as financeiras, porém, trata-se de um cenário perigoso. Além de perder parte de seus clientes, elas só atraem os piores devedores da praça, um mecanismo que a teoria econômica chama de seleção adversa. Como quem está com grandes dificuldades financeiras geralmente não consegue quitar sua dívida, a inadimplência nessas instituições é elevada — nas contas da Roland Berger, está em 22%, três vezes maior que a taxa média do crédito pessoal, por exemplo. “A alta inadimplência, aliada à falta de crescimento, tem prejudicado o retorno dessas empresas”, diz Rodrigo Dantas e Silva, diretor da Roland Berger. Segundo o estudo coordenado por ele, a rentabilidade média do setor em 2007 foi de 11%, metade da dos bancos.

Diante de tal realidade, as financeiras estão sendo obrigadas a mudar. Uma primeira reação foi começar a reduzir as perdas. Depois de abrir centenas de filiais entre 2004 e 2007, essas empresas estão fechando lojas. Com prejuízo de 124 milhões de reais registrado no ano passado, a Taií, financeira do Itaú, por exemplo, encerrou as atividades de quase 100 lojas entre o início de 2007 e março de 2008. A Finasa, controlada pelo Bradesco, seguiu o mesmo caminho. “Estamos depurando nossa operação para ficar com as filiais que são, de fato, rentáveis”, diz Paulo Isola, diretor executivo do Bradesco. Outra estratégia é se concentrar em nichos que cresçam mais e dêem mais retorno do que os créditos de alto risco. Em vez de emprestar diretamente à baixa renda, as financeiras vêm investindo em parcerias com varejistas, para financiar quem compra nessas lojas, e em empréstimos com garantias, como o financiamento de veículos e o próprio consignado. É o que vem fazendo a Finasa, que controla a operação de parte dos cartões de crédito dos clientes da Casas Bahia. Na Fininvest, do Unibanco, mais de três quartos da carteira de crédito já dependem de empréstimos consignados e acordos com redes de varejo, como Magazine Luiza e Ponto Frio. “A migração de produtos é clara”, diz Raphael de Carvalho, diretor executivo da Fininvest.

A Losango, do HSBC, foi mais longe e colocou em andamento um plano cujo objetivo é criar um “minibanco para a baixa renda”, segundo Hilgo Gonçalves, diretor da empresa. No fim de 2007, a Losango criou uma conta corrente simplificada para os mais pobres, cujo depósito mínimo é 15 reais e a movimentação só pode ser feita por cartão de débito. “Com isso, passamos a conhecer o fluxo financeiro dos clientes, o que funciona como uma espécie de comprovação de renda e ajuda a conceder limites de crédito”, diz Gonçalves. As agências desse novo banco funcionam, principalmente, nos varejistas com os quais a Losango tem parceria, como as redes Insinuante e Ricardo Eletro. E ficam abertas aos sábados, até a hora do almoço. “O horário mais flexível faz diferença para esse consumidor”, diz Gonçalves, que planeja lançar uma linha de financiamento de veículos e um seguro de automóvel para a baixa renda nos próximos meses. “Tivemos de nos adaptar.” Se antes eram os consumidores de baixa renda que precisavam se adequar às poucas opções de crédito existentes no mercado, hoje são as instituições financeiras que começam a mudar para conquistar esses clientes.

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