Não é raro avistar o empresário gaúcho Jorge Gerdau Johannpeter em meio à multidão em saguões de aeroportos aguardando pacientemente a hora de embarcar. Normalmente, Gerdau dispensa jatinhos particulares — segundo ele mesmo, gosta de aproveitar a chance de trocar impressões sobre negócios e economia com outros passageiros durante os vôos comerciais. No final de abril, ele fez uma exceção. Foi a única maneira de visitar quatro estados do Nordeste em apenas dois dias. No dia 20 de abril, após participar do 7o Fórum de Comandatuba, que reuniu mais de 700 empresários e políticos, ele fez uma reunião com o governador baiano, Jaques Wagner. No dia seguinte, voou para Pernambuco, onde se encontrou com o governador Eduardo Campos. Horas depois, foi para Alagoas conversar com o governador Teotônio Vilela Filho. A maratona terminou em Sergipe, onde se reuniu com o governador Marcelo Déda. Aos 71 anos, Jorge Gerdau Johannpeter tem hoje uma agenda ainda mais agitada do que nos tempos em que era presidente da Gerdau, um dos maiores grupos siderúrgicos das Américas. A rotina cada vez mais intensa faz parte de uma cruzada pessoal para levar conceitos de eficiência de gestão à esfera pública em todo o país. Como um missionário, ele vem empreendendo uma peregrinação para convencer chefes de governo de todo o país a incorporar elementos da cultura empresarial. Gerdau já obteve sucesso em oito estados, como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. “Meu sonho é que o programa de modernização da gestão pública chegue aos 27 estados brasileiros e às principais prefeituras do país até o final deste ano”, diz o empresário.
A obstinação para articular um movimento nacional na esfera pública tornou-se recentemente o traço mais marcante do perfil de Gerdau. Há um ano e meio, quando passou a presidência do grupo familiar para o filho André, ele parecia já ter deixado seu legado. Sob seu comando, a empresa fundada por seu bisavô há mais de um século deixou de ser uma siderúrgica com atuação predominantemente local e hoje é considerada a companhia mais internacionalizada do país, com vendas de mais de 30 bilhões de reais por ano. Gerdau, no entanto, tem demonstrado que talvez seu maior legado ainda esteja em construção. Numa fase da vida em que boa parte dos empresários diminui o ritmo das atividades, ele está se dedicando cada vez mais intensamente a um novo momento de sua trajetória. Em vez de reclamar dos problemas do Estado, ele decidiu reunir esforços entre empresários e políticos para tentar achar soluções para questões críticas do país. Seu caminho foi a disseminação da gestão de qualidade, que nos últimos anos levou um grupo de empresas brasileiras ao protagonismo no mercado mundial. Guardadas todas as proporções, trata-se de um caminho similar ao de Bill Gates. Com a Fundação Bill and Melinda Gates, o empresário americano poderá deixar, como filantropo, uma marca tão ou mais relevante do que conseguiu com a criação da Microsoft. Gates tem 70 bilhões de dólares para financiar escolas e pesquisas para a cura de doenças “No Brasil, não há nenhum outro empresário engajado em questões de natureza pública quanto Gerdau”, diz o cientista político Murillo de Aragão.
| Ímpeto messiânico |
| Os números que mostram a nova fase da trajetória do empresário Jorge Gerdau Johannpeter |
| Hoje, ele dirige oito associações que incentivam ou patrocinam a gestão eficiente no governo, como o Movimento Brasil Competitivo, que ele mesmo fundou em 2001, e a Ação Empresarial, que apóia causas como a reforma tributária |
| Sua rotina de viagens é 40% mais intensa do que na época em que dirigia a Gerdau, uma das empresas mais internacionalizadas do país |
| Mais de dez empresários, como Gilberto Sayão e Beto Sicupira, patrocinam os projetos de choque de gestão nas diversas esferas do governo |
Sua crença transformadora é sustentada por um triunvirato formado por ele próprio, pelo consultor Vicente Falconi, do INDG, e por Carlos Alberto Sicupira, um dos controladores da Ambev. Gerdau abre as portas dos governos. Sicupira entra com a articulação financeira para arrecadar dinheiro de empresários por meio de sua ONG, a Fundação Brava. Falconi, um dos mais conceituados especialistas em gestão do país, é a ponta técnica — e cabe à sua consultoria treinar as equipes dos governos. Empresários como David Feffer, presidente da Suzano Holding, e o banqueiro Gilberto Sayão, sócio do UBS Pactual, ajudaram a patrocinar o recém-iniciado projeto de eficiência gerencial no estado do Rio de Janeiro, por exemplo. Um grupo de empresários já está sendo montado para bancar o programa na Bahia, em fase final de acerto do contrato. Em todos esses lugares, o objetivo é alcançar metas como as de Minas Gerais, o primeiro estado a adotar o programa. Em menos de quatro anos, o governo mineiro zerou um déficit de 2,5 bilhões de reais.
A engrenagem assumiu um ritmo mais intenso a partir do afastamento do empresário do dia-a-dia da Gerdau. A primeira grande rodada de visitas aconteceu ao longo do ano passado. A jornada foi preparada com um telefonema ao consultor Falconi, em outubro de 2006. Gerdau ligou para o amigo, que conhece desde os anos 70, e pediu a ele que deixasse dias livres em sua agenda para as visitas aos governadores que acabavam de assumir os estados. “De lá para cá nos falamos constantemente sobre os projetos”, diz Falconi. “Nenhum outro assunto hoje o deixa tão empolgado quanto o avanço da eficiência no governo.”
Nem a maior dedicação do mundo, porém, seria suficiente para tornar a projeto bem-sucedido sem a influência política que Jorge Gerdau conquistou durante sua carreira. Ao longo das mais de duas décadas em que ficou à frente do grupo, ele se transformou numa espécie de interlocutor do empresariado nacional junto ao governo. Nos anos 90, fundou um dos mais ativos movimentos empresariais voltados para a gestão pública no país — a Ação Empresarial, que reúne quase 60 empresários em torno da defesa de reformas estruturais e legais. Desde 2003, ocupa um assento no Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social do governo, conhecido como Conselhão, em que mais de 80 representantes de diversos setores da sociedade debatem com o governo questões como a reforma tributária. O bom trânsito em Brasília tornou-o um candidato involuntário ao Ministério do Desenvolvimento, quando Luiz Fernando Furlan anunciou sua saída, no início de 2007. “Posso contribuir mais fora do governo”, disse ele na época. Essa escalada em Brasília foi vital para que o atual programa de choque de gestão fosse ouvido pelas principais lideranças políticas do país. “Sem a influência de Jorge, certamente não teríamos o mesmo sucesso na aproximação com governos”, diz Falconi. O consultor se lembra de uma das visitas que o trio fez a ministérios em Brasília tempos atrás. Ao saber da presença de Gerdau, o presidente Lula chamou-o imediatamente para uma conversa a portas fechadas. Falconi e Sicupira passaram a tarde esperando do lado de fora.
| O mapa do choque |
| Estados, municípios e ministérios que já adotaram programas de eficiência pelas mãos de Gerdau e alguns dos resultados mais expressivos |
| Prefeitura de São Paulo |
| Ganho total(1) 5,3 bilhões de reais |
| Quando começou 2006 |
| O que foi feito A adoção da nota fiscal eletrônica permitiu o aumento da arrecadação e diminuiu a carga tributária dos contribuintes, uma vez que 30% do imposto recolhido pelo município retorna como crédito ao cidadão |
| Estado de Minas Gerais |
| Ganho total 2,1 bilhões de reais |
| Quando começou 2003 |
| O que foi feito Os leilões eletrônicos renderam os ganhos mais expressivos. Apenas em 2007, houve redução de 18 milhões de reais na compra de itens como equipamentos de informática e refeições nos hospitais do estado |
| Estado do Rio de Janeiro |
| Ganho total(1) 1,2 bilhão de reais |
| Quando começou 2007 |
| O que foi feito Medidas como a terceirização da manutenção da frota da Polícia Militar. Mais de 300 policiais que antes se dedicavam a esse serviço puderam voltar para as ruas |
| (1) Saldo dos ganhos anuais com o aumento das receitas e o corte de custos |
Quebrar resistências é a parte mais difícil do trabalho que Jorge Gerdau se propôs a fazer. Algumas negociações demoram anos até resultar num contrato. Por ironia, uma das mais lentas deu-se no Rio Grande do Sul. Na primeira visita do consultor Falconi ao estado, em 2004, durante a gestão do ex-governador Germano Rigotto, ele nem sequer foi recebido no Palácio Piratini. O programa só foi implantado de fato no atual governo, de Yeda Crusius, a partir do ano passado. A postura apolítica de Gerdau — algo difícil de manter na esfera pública — certamente ajuda a driblar parte da resistência. Seu principal argumento é resultado. “Sou um marqueteiro da qualidade. Vendo essa idéia porque dá muito dinheiro para todos”, diz ele. Em seus road shows pelo país, um de seus argumentos mais tangíveis é uma conta da relação entre o valor investido nos programas de consultoria para a gestão pública e os resultados obtidos. Segundo Gerdau, o custo do programa tem sido, em média, 3% do resultado obtido. Um dos mais recentes convertidos ao discurso do grupo de Gerdau é o governador de Sergipe, Marcelo Déda, do PT. O governador afirma que estranhou o primeiro pedido de encontro que o empresário fez, em março de 2007. Ficou ainda mais intrigado quando descobriu que Jorge Gerdau acompanhava pessoalmente a assinatura de todos os contratos para os programas de choque de gestão e que também freqüentava reuniões de apresentação de resultados. “Em vez de ficar reproduzindo um discurso de reclamação, ele atravessou uma floresta de preconceitos para sentar-se à mesa com os governantes de esquerda, oferecer uma contribuição efetiva e discutir uma cooperação que pode levar as administrações a ficar mais eficientes”, diz Déda. Iniciado em maio do ano passado, com a meta de elevar a arrecadação de Sergipe em 87 milhões de reais e reduzir suas despesas em 40 milhões de reais em 12 meses, o programa superou as expectativas e já conseguiu um ganho total de cerca de 140 milhões de reais. Entre as diversas medidas tomadas, houve o bloqueio de ligações para celular, instalação de chips para controle do consumo de combustível e revisão de contratos de fornecimento de serviços.
As ambições de Jorge Gerdau são quase tão expansionistas quanto as que manteve à frente de seu grupo. Ele sonha fechar contratos em todos os estados brasileiros. Recentemente, conseguiu abrir as portas do governo federal pela primeira vez com um contrato com o Ministério do Desenvolvimento Social. A reestruturação da Previdência, um de seus projetos mais ousados, ainda esbarra numa ala mais resistente do governo. Segundo uma avaliação preliminar do INDG, as mudanças permitiriam cortar os gastos em até 50 bilhões de reais em quatro anos, sem nenhuma mudança na legislação atual. “Como numa empresa, esses processos às vezes são longos. É preciso ter paciência”, diz Gerdau.

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