Primeira mulher a ocupar o cargo de chanceler da Alemanha, Angela Merkel chegou ao poder em novembro de 2005 cercada por uma enorme expectativa. Ela saiu vitoriosa da campanha parlamentar defendendo uma política radical para tirar o país da letargia econômica. O cenário era formado por índices de crescimento medíocres, altas taxas de desemprego e um considerável déficit público. Os mais entusiasmados analistas viam potencial para Angela se tornar uma espécie de reencarnação germânica de Margareth Thatcher, a dama de ferro que tirou do fundo do poço a Inglaterra nos anos 80 com um pacote de medidas liberais. Mas os primeiros meses foram decepcionantes. Em menos de um ano de poder, a popularidade de Angela Merkel já havia caído consideravelmente, com 60% dos eleitores reprovando o governo e a lentidão na implantação de reformas vitais. O começo difícil deixou para muitos a impressão de que a Alemanha, terceira maior economia do mundo e líder européia, continuaria sua decadência.
Passados quase três anos, o cenário é outro. Um dos melhores termômetros disso é a popularidade da chanceler. As pesquisas mais recentes mostraram uma taxa de aprovação do governo de quase 80%. A resposta a essa guinada dos humores na opinião pública pode ser resumida nos seguintes termos: a locomotiva da economia alemã voltou a entrar nos trilhos. A Alemanha ainda não solucionou todos os seus graves problemas, é verdade. Mas, pela primeira vez em muito tempo, colecionou uma série de indicadores econômicos positivos, o que abre uma perspectiva mais otimista para o seu futuro. Em 2006, registrou crescimento do PIB de 2,9%, acima da média dos países da zona do euro (veja quadro na página ao lado). Desde então, vem acompanhando o ritmo de desenvolvimento dos vizinhos de continente, resultado bom, considerando-se o tamanho da economia alemã. As previsões para 2008 são de que o país terá o quinto ano seguido de expansão, com uma taxa de 1,8% de evolução do PIB. “A Alemanha recuperou a força. Sua competitividade internacional está em alta novamente e as pessoas devem ficar menos preocupadas com a manutenção de seus empregos”, afirmou Angela, num discurso realizado recentemente no Reichstag, o parlamento alemão.
Um dos motores da recuperação do país foram as reestruturações realizadas nos últimos anos por grandes companhias nacionais. Grupos industriais, como a Basf e a Bayer, fizeram ajustes tecnológicos e operacionais que resultaram em melhoria de competitividade no mercado global. A montadora BMW, por exemplo, deve demitir 8 100 funcionários até o final de 2008, o equivalente a 7,5% da sua força de trabalho. Um dos principais efeitos dos ajustes de emergência foi interromper o ciclo de alta dos custos da mão-de-obra alemã — nos últimos quatro anos, houve até uma redução nesse aspecto, da ordem de 3%. Os operários do país ainda continuam sendo muito caros, principalmente quando comparados aos seus colegas do mundo emergente. Mas as nações que não fizeram esse tipo de ajuste colecionaram recentemente aumentos do custo de mão-de-obra de até 6,5% num ano, como foi o caso da Noruega.
Com as reformas realizadas, as empresas alemãs conseguem agora aproveitar o momento de expansão da economia global. Em 2007, o país foi o maior exportador do mundo, com um total de 1,4 trilhão de dólares, 30% mais do que o valor registrado há três anos. O mais importante parceiro de negócios no exterior foi a França, que teve participação de 9,7% em todas as exportações alemãs em 2007. Mas são os mercados emergentes os principais responsáveis pelo atual boom das vendas externas. Em 2007, a Volkswagen entregou 80 700 veículos à Rússia, 70% mais do que no ano anterior. “Nosso crescimento vem principalmente de mercados como Rússia, China, Índia e Brasil. Esses países estão sedentos por mobilidade e é por essa razão que estamos investindo nessas regiões com a criação de novas fábricas e o aumento da rede de fornecedores”, afirma Martin Winterkorn, presidente mundial da Volkswagen. Nem mesmo a forte valorização do euro atrapalhou o ciclo positivo das exportações. A recuperação das companhias alemãs no mercado internacional teve papel fundamental na criação de uma nova onda de contratações no país. Nos últimos três anos, a taxa de desemprego caiu de 10,5% para 8,3%. A queda do índice deve prosseguir ao longo de 2008, ficando abaixo de 8%, segundo as previsões.
Além do êxito nas exportações, as empresas lucraram nos últimos anos no mercado interno, que voltou a dar sinais de vitalidade. Em 2006, pela primeira vez em seis anos, os gastos com consumo cresceram mais rápido do que o aumento da renda — e a previsão é que essa tendência se mantenha. A situação fez a alegria de fabricantes de carros, eletrodomésticos, equipamentos eletrônicos, roupas e calçados. As vendas da fabricante de artigos esportivos Adidas, por exemplo, cresceram 30% na Europa nos últimos quatro anos. Boa parte desse resultado se deve ao mercado alemão.
O conjunto de reformas para tentar colocar de volta nos trilhos a economia do país teve início em 2003, ainda no governo do social-democrata Gerhard Schroder. Entre outras medidas, ele alterou a lei que rege os contratos temporários de trabalho, o que estimulou as empresas a realizar mais contratações por esse sistema. Com a mudança, o número de empregados nessa condição na Alemanha passou de cerca de 10% na metade dos anos 90 para quase 15% em 2006. Num primeiro momento, boa parte das ações de Schroder foi duramente rejeitada pela população, acostumada à teia de proteção do sistema de bem-estar social implantada no país no período pós-guerra. Esse foi um dos principais motivos que provocaram a derrota dos sociais-democratas nas eleições parlamentares de 2005.
Ao chegar ao poder, Angela Merkel teve o mérito de adotar uma política pragmática, aprofundando as reformas econômicas. O ponto mais emblemático dessa postura foi a mudança promovida na previdência do país, com a aprovação da lei que aumentará a idade mínima de aposentadoria de 65 para 67 anos a partir de 2012. Isso deve desafogar um pouco os gastos públicos com o sistema de pensões. Angela também colocou o combate ao desemprego entre suas prioridades e trabalhou na modernização e na integração da antiga Alemanha Oriental com o restante do país, um processo trabalhoso e que custou até agora cerca de 1,6 trilhão de dólares aos cofres públicos.
Apesar dos avanços recentes, o baixo crescimento da produtividade alemã preocupa. A média anual de horas trabalhadas por funcionário no país é de 1 433 horas, uma das mais baixas da Europa, de acordo com dado mais recente divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). As tentativas de mudança desse quadro sempre esbarram no poderio dos sindicatos alemães. E, como no resto do mundo, o fantasma da inflação hoje ronda a economia alemã. Diante dessas fragilidades, alguns analistas entendem que o atual momento de prosperidade do país pode não ser um fenômeno sustentável. Cabe a Angela a tarefa de provar que eles estão errados, demonstrando que os avanços recentes foram os primeiros frutos de uma série de mudanças profundas e estruturais na economia do país.
