No mundo dos negócios, há companhias que parecem estar sempre emergindo de alguma crise — o que, se por um lado revela capacidade de recuperação, também pode indicar que seus problemas nunca encontram uma solução definitiva. A Paranapanema, uma das mais antigas companhias abertas em funcionamento no Brasil, é assim. Seu histórico de dificuldades é tão longo e complicado que ela já chegou a ser apelidada de Paranaproblema. Desde que foi comprada, em 1996, por um consórcio de fundos de pensão liderados pela Previ, a Paranapanema já sugou 3 bilhões de reais dos acionistas. Mesmo assim, sua sobrevivência continua ameaçada. Após um ensaio de recuperação em 2006, a companhia perdeu 65% de seu valor de mercado em um ano, de 2,8 bilhões de reais em maio de 2007 para 1 bilhão no mês passado. Os prejuízos voltaram — já são 165 milhões desde 2007. O patrimônio líquido está negativo. A situação é tão grave que, sob a ameaça de perder tudo o que já investiram, os fundos de pensão não têm alternativa senão colocar mais dinheiro na empresa. “Fui até onde era possível”, diz Geraldo Haenel, especialista em reestruturação de empresas contratado em 2004 para dirigir a companhia. “Agora, só pagando a dívida.”
Diante da ameaça concreta de perder tudo o que investiram, os fundos decidiram tomar providências mais radicais para se livrar do mico. Vão injetar mais 600 milhões de reais para ajudar a debelar a dívida, que hoje soma 1 bilhão de reais. Só a Previ já enterrou na Paranapanema 1,5 bilhão. Com a nova ajuda, serão mais 150 milhões de reais. O fundo também contratou o banco UBS para encontrar um comprador ou sócio para a empresa. Nenhum outro investimento deu tanto prejuízo ao fundo — que é acionista de companhias rentáveis, como Embraer, Vale e Perdigão, e de outros negócios bem complicados, como Costa do Sauípe e o parque de diversões Hopi Hari. E, mesmo com a nova bóia de salvação, o futuro da empresa é incerto.
À primeira vista, os negócios da Paranapanema formam uma equação imbatível. São quatro fábricas — uma de fertilizantes e três de insumos para a indústria automotiva, siderúrgica, eletrônica e construção civil —, setores que só têm crescido nos últimos anos. Só que essa vantagem foi sendo minada aos poucos por uma combinação de reveses. O primeiro é o fato de que a reestruturação da empresa, comprada em 1996, só começou a acontecer em 2004. Àquela altura, problemas graves, como inchaço, desperdício e defasagem tecnológica, já haviam alimentado a imensa dívida, que chegava a 1,2 bilhão de reais. Desde que assumiu, o novo presidente conseguiu cortar 200 milhões de reais em custos e aplicou 700 milhões de reais na renovação do parque tecnológico. Mas foi como enxugar gelo. Desde maio de 2007, a Paranapanema já pagou em juros da dívida o equivalente a toda a economia dos últimos quatro anos. A Caraíba Metais, subsidiária que responde por 73% do faturamento da holding, enfrentou uma queda de 95% no lucro entre 2006 e 2007, que estacionou em 14 milhões de reais. A queda é reflexo da oscilação nos preços do cobre, a principal matéria-prima da empresa. Para completar, a crise das bolsas abateu o plano da Paranapanema de captar dinheiro no mercado para pagar a dívida, que não diminuiu nem 1 real desde 2004. O plano de salvamento anunciado pela Previ deixou o presidente da Paranapanema otimista. “O problema era a dívida. Sem ela, a empresa vai crescer”, diz Haenel. Mas os analistas de mercado não compartilham da mesma animação. “Apesar dos cortes, a estrutura de custos da empresa ainda é pesada e, se não for melhorada, a Paranapanema continuará definhando”, diz Fausto Gouveia, analista da Alpes Corretora.
Além de cortar ainda mais custos, Haenel e a Previ, que detém 49% da Paranapanema, ainda têm de desatar mais um nó se quiserem livrar a companhia do estigma de problema insolúvel. É a oposição barulhenta do acionista minoritário Sílvio Tini, conhecido pela atuação que tem em companhias como Alpargatas e Bombril. Seu perfil é o de investidor ativista, aquele que usa sua participação minoritária para influir nos rumos do negócio. Herdeiro da família que fundou a Paranapanema, na década de 60, Tini tem 13% das ações ordinárias da companhia e vive em pé de guerra com os fundos. “Ele está sempre na sede da empresa, impondo uma influência que deixa os executivos sem saber que direção seguir”, diz o representante de um dos acionistas. Segundo executivos dos fundos, os constantes questionamentos de Tini atrasaram em pelo menos um ano a reestruturação financeira da companhia. Tini não nega que exerça influência, mas diz que só quer tornar a empresa lucrativa. “Se os fundos tivessem concordado em colocar dinheiro antes na empresa, não estaríamos nessa penúria”, diz ele. A última briga de Tini com os fundos é a defesa de que a Paranapanema invista na exploração de uma mina com mais de 20 minérios no Amazonas. A idéia é considerada inviável pelo presidente da Paranapanema — sinal de que o apelido de Paranaproblema, como a empresa é conhecida em alguns círculos, tão cedo não deixará de existir.
