
A indústria de turismo, que movimenta por ano bilhões de dólares e é formada por uma poderosa cadeia de empresas, surgiu de forma bastante prosaica. Tudo começou em 1841, quando o comerciante inglês Thomas Cook, vendedor de bíblias, criou o primeiro pacote de viagens de que se tem notícia. Naquela época, a Inglaterra, a exemplo de outros países europeus, estava cada vez mais integrada por ferrovias, mas o sistema tarifário era complexo para o cidadão comum e havia pouca oferta de hospedagem. Para ajudar os participantes de um encontro de combate ao alcoolismo que teriam de percorrer o trajeto de 17 quilômetros entre as cidades de Leicester e Loughborough, na região central da Inglaterra, Cook teve a idéia de fretar um trem com tarifas reduzidas e organizar a viagem. Conseguiu reunir mais de 500 interessados. Entusiasmado com o sucesso da empreitada, ele abandonou o antigo negócio para criar a primeira agência de viagens do mundo, batizada com seu próprio nome.
Apesar dos esforços de pioneiros como o britânico Cook, a indústria de viagens só deslanchou a partir da metade do século 20, quando a economia global começou a dar sinais vigorosos de recuperação após o término da Segunda Guerra Mundial. Esse período de bonança deixou parte considerável da população do planeta com mais dinheiro no bolso e tempo disponível para o lazer. A evolução dos sistemas de transportes, com destaque para o sur gimento dos aviões a jato na década de 50, completou o conjunto de condições que favoreceram a explosão do turismo de massa. Poucos setores da economia se desenvolveram num prazo tão curto. Em pouco mais de cinco décadas de história, os destinos multiplicaram-se e essa indústria tornou-se uma das mais ricas, dinâmicas e promissoras áreas da economia global. Não por acaso, ela é hoje prioridade tanto nas nações desenvolvidas quanto nos países mais pobres -- que enxergam no turismo uma força incomparável na geração de empregos e de divisas. "Nesses lugares, o setor cresce dez vezes mais rapidamente que nos mercados industrializados", afirma o francês Francesco Frangialli, secretário-geral da Organização Mundial de Turismo (OMT), agência da Organização das Nações Unidas (ONU) voltada para o setor.
Mesmo para uma indústria acostumada a dar saltos rápidos ao longo da história, o momento atual é impressionante. Nunca houve tantas viagens internacionais como em 2006. O ato de atravessar a fronteira de um país com intenção turística -- o que pressupõe permanência acima de 24 horas e abaixo de um ano, segundo critérios adotados pela Organização das Nações Unidas -- foi repetido 842 milhões de vezes ao redor do mundo no ano passado, acréscimo de 4,5% em relação a 2005. É como se um de cada oito habitantes do mundo tivesse viajado para outro país. Esses turistas deixaram 710 bilhões de dólares nos países que visitaram, média de 845 dólares por pessoa. Sozinho, o turismo responde por 6% das vendas de bens e serviços no mundo, fatia que tende a crescer rapidamente. De acordo com um estudo da OMT, o número de turistas internacionais deve aumentar a um ritmo de 4,1% nos próximos anos, superando a marca de 1,5 bilhão de visitantes em 2020. Até lá, ainda segundo as projeções da OMT, esses turistas deverão gastar mais de 2 trilhões de dólares por ano em suas via gens, o que transformaria o turismo na maior indústria do planeta.
Além de ter alcançado tamanho enorme, o setor de turismo possui algumas vantagens que o tornam um negócio único. Uma de suas características mais marcantes é que, embora a ação do governo seja importante na regulação e na infra-estrutura, são as empresas privadas que dominam. Elas detêm hoje o título de campeãs em capacidade de criação de empregos num período curto. Estudos mostram que o turismo é capaz de gerar novas colocações uma vez e meia mais rápido que qualquer outro setor industrial. A área também se destaca em tempos em que a preocupação com a preservação do planeta é cada vez maior. Diferentemente de outros setores, a expansão do turismo não consome mais recursos naturais, e tem pouco impacto no aumento da poluição. Por fim, a indústria do turismo é extremamente dinâmica. Por mais que se encantem com um destino, os viajantes estão sempre dispostos a conhecer coisas novas -- ou seja, não há fidelização nessa área. Por causa disso, graças a uma política correta de investimentos, roteiros completamente desconhecidos podem virar pesos pesados da área, como foi o caso de Dubai, nos Emirados Árabes. Nos últimos anos, a cidade-estado investiu bilhões de dólares na construção de obras nababescas para atrair turistas. Hoje, Dubai recebe mais de 6 milhões de visitantes por ano (veja matéria na pág. 36).
Assim como se beneficiou de um período de bonança para se desenvolver rapidamente a partir da metade do século passado, a indústria do turismo também é uma das que mais sentem na pele as grandes oscilações da economia mundial. Um dos momentos mais críticos da história foi a crise desencadeada em 2001, após os atentados de 11 de setembro, nos Estados Unidos. O pânico gerado pelas ações terroristas afastou durante bom tempo as pessoas dos aviões e aeroportos. No auge desse período negro, os parques da Disney em Orlando, por exemplo, chegaram a registrar queda de movimento de 30%. Naquela época, as previsões sobre o futuro do setor eram bastante pessimistas. Falava-se que a crise poderia durar alguns anos. O cenário desastroso não se concretizou. Depois de uma queda no número de passageiros entre 2001 e 2003, o setor voltou a entrar em rota de ascensão. Desde então, vem batendo recordes de movimento e de faturamento a cada ano.
| O ranking dos destinos turísticos | |
| Por número de visitantes (milhões) | |
| País | Visitantes |
| 1 - França | 76 |
| 2 - Espanha | 55,6 |
| 3 - Estados Unidos | 49,4 |
| 4 - China | 46,8 |
| 5 - Itália | 36,5 |
| 6 - Reino Unido | 30 |
| 7 - México | 21,9 |
| 8 - Alemanha | 21,5 |
| 9 - Turquia | 20,3 |
| 10 - Áustria | 20 |
| 36 - Brasil | 5,1 |
| Fonte: Organização Mundial de Turismo, 2005. Dado do Brasil de 2006 | |
Mais de 70 países obtiveram receitas acima de 1 bilhão de dólares em 2006 com a atividade. É uma mudança e tanto de perfil, considerando-se que, após a primeira metade do século passado, 75% dos negócios do setor se concentravam em apenas cinco países -- Canadá, Estados Unidos, França, Itália e Suíça. Esse grupo ainda ocupa um espaço privilegiado na área. De acordo com a OMT, o país que atrai mais visitantes no mundo é a França, com 76 milhões de turistas por ano. Do ponto de vista de faturamento, os Estados Unidos superam qualquer outro lugar, com arrecadação anual superior a 80 bilhões de dólares. Mas o setor está cada vez mais democratizado. Destinos que estavam em posições muito inferiores nos rankings da área passaram a despontar nos últimos anos. É o caso de China, Turquia, Ucrânia, Índia e Brasil, potências emergentes do mercado turístico mundial, com taxas anuais de crescimento acima de 10% no número de visitantes.
A importância econômica da atividade turística cresce na mesma proporção do número de viajantes internacionais, em especial nos países em desenvolvimento. Neles, o setor chega a representar 30% do PIB, ante a média de 3% a 5% registrada nos países desenvolvidos. A importância social do turismo já pode ser percebida pela evolução das estatísticas. O continente que tem apresentado maior crescimento no número de visitantes é justamente o mais pobre deles, a África -- 9% ao ano, bem acima da média mundial. Já o que vem crescendo mais lentamente é o mais rico, a Europa -- 4% ao ano. Embora o Velho Continente continue disparado na frente como principal destino dos turistas internacionais, sua participação no bolo mundial vem caindo gradualmente, de 60% em 1990 para os atuais 55%.
A enorme competição entre os países faz com que cada um procure atrair visitantes a seu modo. Essa guerra de marketing é cada vez mais sofisticada. O cinema tem sido utilizado com freqüência como veículo para a promoção de destinos. Uma das ações mais bem-sucedidas foi a desfechada pela Nova Zelândia, por ocasião do lançamento da trilogia O Senhor dos Anéis, em 2001. Além de emprestar 35 locações para as filmagens das aventuras de hobbits, feiticeiros e elfos, entre outros seres fantásticos, o país investiu 2 milhões de dólares em campanhas publicitárias de divulgação de suas belezas nacionais, pegando carona no enorme sucesso da trilogia. Resultado: entre 2001 e 2006, o número de turistas estrangeiros na Nova Zelândia aumentou 50%, de 1,6 milhão para 2,4 milhões ao ano.
Outra frente de batalha na competição da indústria do turismo é pela criação de novas atrações. Entre as décadas de 80 e 90, um dos produtos que mais geraram dividendos foi o ecoturismo. Destinos do tipo continuam a fazer muito sucesso ao redor do mundo, mas não são mais vistos como a vanguarda para o desenvolvimento do setor. Esse lugar cabe hoje ao turismo espacial, negócio que começou a ser explorado a partir do início do século 21. No momento, há várias empresas privadas concorrendo no desenvolvimento de produtos como vôos suborbitais ou visitas à Estação Espacial Internacional (ISS). Por trás do financiamento dos projetos estão nomes de grandes empresários, como Paul Allen, um dos fundadores da Microsoft, e Richard Branson, dono da Virgin. Por enquanto, o programa é para apenas alguns felizardos, como o milionário americano Dennis Tito, que pagou 20 milhões de dólares para visitar a ISS em 2001. Na visão otimista de alguns dos entusiastas do negócio, isso deve mudar em breve. Na opinião desses especialistas, quando tiverem preços mais acessíveis, as viagens espaciais vão representar a nova fronteira de expansão da indústria mundial -- ou seria universal? -- de turismo.
| Viagem histórica |
| Os fatos que afetaram a evolução do setor mundial do turismo |
| 1841 |
| 1858 Com uma viagem de Liverpool a Nova York, o transatlântico inglês Great Eastern, com capacidade para 4 000 passageiros, inaugura a era dos cruzeiros marítimos de luxo. O navio ficaria em atividade até 1889. |
| 1883 Inaugurado o Expresso do Oriente, trem ligando Paris a Constantinopla (hoje Istambul, na Turquia). O trem ficaria célebre como cenário de um romance da escritora Agatha Christie. |
| 1898 O suíço Cesar Ritz, que viria a ser considerado o pai da hotelaria moderna, inaugura o célebre hotel de luxo que leva seu sobrenome, em Paris. O Ritz é desde então freqüentado por intelectuais e artistas. |
| 1925 Realiza-se em Haia, na Holanda, o primeiro encontro internacional de organismos ligados ao turismo. Dessa reunião se originou a Organização Mundial de Turismo (OMT), agência vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU). |
| 1949 Acompanhia aérea americana Pacific Southwest Airlines lança o conceito de turismo de baixo custo, com a venda de bilhetes sem intermediários e a eliminação de refeições completas durante o vôo. |
| 1952 Entra em operação o primeiro avião comercial a jato, o britânico De Havilland Comet, pela companhia British Overseas Airways Corporation. |
| 1955 A Disneylândia é inaugurada na cidade de Anaheim, próxima a Los Angeles, na Califórnia, nos Estados Unidos. Desde então, o parque de diversão criado por Walt Disney já recebeu 520 milhões de visitantes. |
| 1969 O Boeing 747, primeiro avião a jato de grande capacidade (cerca de 450 passageiros), faz seu vôo inaugural. Nas três décadas seguintes, mais de 2,2 bilhões de pessoas em todo o mundo viajariam nesse avião. |
| 1989 A queda do Muro de Berlim, que dividiu a cidade alemã durante 28 anos, simboliza a abertura das fronteiras européias. Nasce uma moeda única, o euro, e cresce a circulação de pessoas nos 27 Estados membros. |
| 2001 Em 11 de setembro, terroristas seqüestram quatro aviões para cometer atentados contra os Estados Unidos. Uma das conseqüências foi a drástica retração do turismo internacional nos três anos seguintes. |
| 2006 A empresária Anousheh Ansari, iraniana radicada nos Estados Unidos, é a primeira mulher a praticar turismo espacial. Ela paga 20 milhões de dólares para viajar até a Estação Espacial Internacional. |

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