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O Nordeste português

 | 05.04.2007

Com 2,2 bilhões de reais em investimentos em grandes cadeias de hotéis e resorts, os portugueses dominam o mercado e estão transformando a região em um dos mais atraentes destinos do mundo

 

Divulgação

O Vila Galé, em Guarajuba: obras sofisticadas no litoral baiano

Por Rodrigo Cavalcante

EXAME 

Até poucos anos atrás, a bela enseada da praia de Engenhoca, no litoral baiano, era conhecida apenas por poucos surfistas que percorriam a pé uma trilha de 15 quilômetros em meio à Mata Atlântica em busca de suas ondas. Localizada na Costa do Cacau, próxima à região de Ilhéus, a praia se tornou, nos últimos três anos, assunto de prestigiadas publicações internacionais, como a revista dominical do The New York Times, a revista inglesa Wallpaper e a Robb Report, bíblia do consumo de luxo dos milionários americanos. Tudo por causa do ousado empreendimento português Warapuru (em tupi, lobo comendo fruta), um sofisticado resort com projeto assinado por Anouska Hempel, uma das mais famosas designers de hotéis da Inglaterra. Tanto pelo requinte e mordomia -- serão sete atendentes por hóspede -- quanto pela construção minimalista que o torna quase invisível em meio à vegetação local, o resort tem sido descrito como cenário ideal para um refúgio de James Bond. A diária, claro, também é diretamente proporcional ao conforto: ficará em torno de 600 dólares (pouco mais de 1 200 reais).

Estimado em 80 milhões de reais, o investimento feito pelo empresário português João Vaz Guedes e seus três sócios é apenas um exemplo -- sofisticadíssimo, por sinal -- de como os empreendimentos portugueses estão mudando o perfil do turismo na região. Hoje, os grupos do país são os que mais investem no Brasil. De acordo com os dados levantados pelo ANUARIO DE TURISMO EXAME, nos próximos três anos, empresas de capital português vão investir cerca de 2,2 bilhões de reais em novos projetos turísticos no Brasil -- quase 100% desses recursos serão aplicados no Nordeste. Na lista dos que mais investem, os portugueses só são seguidos de perto pelos espanhóis, que pretendem aplicar 1,3 bilhão de reais até 2010. "Os portugueses têm sido fundamentais para o desenvolvimento da região", diz Felipe Cavalcante, presidente da Associação para o Desenvolvimento Imobiliário e Turístico do Nordeste Brasileiro (Adit).

A chegada desses grandes grupos portugueses (veja quadro para conhecer alguns deles) começou há cinco anos, mas vem se intensificando com rapidez nos últimos dois. Existem algumas razões para isso. A primeira delas é a proximidade -- e não apenas a cultural, da língua e das tradições, mas também a geográfica. Em menos de 6 horas, é possível pegar um vôo em Lisboa e chegar, por exemplo, a Natal, no Rio Grande do Norte. A oferta de vôos hoje é bastante razoável. Existem cerca de 2 500 vôos regulares diretos entre o Nordeste do Brasil e Portugal, enquanto no início da década a maioria dos passageiros precisava fazer conexão em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Por essas e outras razões, o Brasil tem exercido uma forte atração nos turistas portugueses. Cerca de dois terços dos visitantes já vieram, pelo menos, uma outra vez ao Brasil e 98% deles dizem que voltarão. Hoje, eles formam o terceiro maior contingente de turistas que visitam o país, com 358 000 viajantes por ano. Em números absolutos, os portugueses ficam atrás apenas da vizinha Argentina e dos Estados Unidos, que têm uma população 28 vezes maior.

De onde vem o dinheiro
Quem são os principais investidores portuguese
Empresa Atuação em Portugal Negócios no Brasil
Banco Privado Português (BPP) Sediado em Lisboa, o banco de investimentos tem quase 2 bilhões de euros de ativos sob sua gestão Tem participação na OHL, que detém concessões de rodovias. Lidera o consórcio responsável pelo Aquiraz Golf & Beach Villas, no Ceará
Grupo Pestana O maior grupo hoteleiro português possui 23 hotéis e resorts em Portugal e 15 no exterior Tem oito hotéis no Brasil. Vai construir um resort em Porto de Galinhas (PE),num investimento estimado em 210 milhões de reais
Grupo Reta Atlântica Fundado em 1999, atua nos setores imobiliário, de turismo e lazer na Grande Lisboa e na região do Algarve Está construindo seu primeiro empreendimento no país, um resort em Mata de São João (BA)
Grupo Vila Galé Tem uma rede de 15 hotéis nas regiões de Porto, Lisboa, Beja, Algarve e Madeira Possui hotéis em Fortaleza, Salvador e na praia de Guarajuba (BA). Estuda a construção de um hotel na praia de Cumbuco (CE)
Somague
A empresa da família Vaz Guedes é a maior construtora de Portugal, com destaque para obras de infra-estrutura Está investindo 80 milhões de reais na construção de um hotel de luxo em Itacaré (BA)

Outra razão que vem atraindo o capital português -- e também o espanhol, o francês, o inglês e até o nórdico -- é a conjuntura do turismo mundial. O Nordeste brasileiro, com praias paradisíacas, tornou-se um destino interessante depois que lugares como Tailândia, Caribe e o estado americano da Flórida passaram por desastres naturais (intempéries como furacões e tsunami). Segundo dados da Infraero, o número de passageiros internacionais que desembarcaram nos estados do Nordeste dobrou em três anos, passando de 500 000, em 2003, para mais de 1 milhão, em 2006. Além disso, a valorização de moedas como o euro e a libra esterlina ante o real torna o Brasil um país de custo muito baixo para esses mercados -- não apenas no preço dos terrenos, mas também na mão-de-obra e na manutenção das operações. "Outra vantagem da região é o fato de os hotéis não precisarem fechar temporariamente devido a mudança de estações", diz o consultor Diogo Canteras, da HVS International, especializada em empreendimentos turísticos.

O Ceará é o estado mais beneficiado pelos investimentos portugueses, por abrigar os empreendimentos mais grandiosos. Um deles é o maior investimento português não só na re gião, mas em toda a América Latina. Com capital do Banco Privado Português em conjunto com os grupos Saviotti e Solverde, o município de Aquiraz, a 27 quilômetros de Fortaleza, vai receber 750 milhões de reais para a construção do Aquiraz Golf & Beach Villas (veja reportagem na página 62). O projeto prevê a construção de quatro a seis hotéis e 700 unidades de residência numa área de 280 hectares cercada por campo de golfe, shopping, restaurantes, centro de convenções e hípica. Trata-se do mais ousado projeto na Região Nordeste desde a construção de Costa do Sauípe. "Além de planejarmos a construção dos hotéis em etapas, para evitar que a oferta de quartos supere a demanda e gere baixas taxas de ocupação, os investidores também optaram por um projeto arquitetônico mais integrado ao ambiente, com construções de apenas dois andares", diz João Rendeiro, presidente do conselho administrativo e principal acionista do Banco Privado Português.

Apesar de o Ceará ser hoje o maior destino de investimentos turísticos no Nordeste em valor -- 1,4 bilhão de reais --, a Bahia, com seus 950 quilômetros de litoral, é o estado que abriga o maior número de empreendimentos. No total, são nove hotéis e resorts no litoral baiano, que vão receber mais de 500 milhões de reais de capital português. Isso sem falar em projetos que já saíram do papel. Um exemplo é o Hotel Convento do Carmo, do grupo português Pestana, que transformou um convento tombado pelo Patrimônio Histórico, no bairro do Pelourinho, em Salvador, num pequeno e sofisticado hotel. Primeiro empreendimento sob a bandeira Pousadas de Portugal fora daquele país, o Convento do Carmo, inaugurado em 2005, acomoda os hóspedes em luxuosos apartamentos que um dia já abrigaram os frades carmelitas que viviam na cidade. Outros detalhes do projeto, como a cabine telefônica instalada em um confessionário barroco, fazem do Convento do Carmo um dos hotéis mais charmosos do país. A diária para casal fica em torno de 1 200 dólares.

Uma das características dos empreendimentos portugueses na região é a construção de hotéis em conjunto com condomínios. Esse tipo de construção é destinado ao mercado do turismo de segunda residência, formado por europeus que preferem adquirir um imóvel para passar as férias no país -- com a opção de alugar a residência durante o resto do ano. O interesse dos portugueses por esse nicho é natural, já que, na Europa, Portugal sempre foi um mercado atrativo para ingleses e europeus do norte construírem casas em busca de clima menos frio. Dentre os estados que despertam o interesse dos investidores está o Rio Grande do Norte, cujo mercado imobiliário anda aquecido com a compra de imóveis por estrangeiros, seguido de Alagoas, procurado pelo belo litoral de 270 quilômetros. "O que está acontecendo no mercado de segunda residência no Brasil é apenas um pálido reflexo dessa tendência no resto do mundo", diz o consultor Canteras. A julgar pelo potencial da região, o Nordeste tem tudo para se transformar num dos maiores pólos do turismo mundial -- e o capital português, assim como o de outros países, será fundamental nesse processo.

 
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